VERGONHA DA DÍVIDA?

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Dívida… quantas pessoas passam por esta experiência acima dos 40, 50 ou 60? Acreditamos que muitas pessoas. E é por isso que resolvemos publicar parte de um artigo, que trata sensivelmente do assunto.

Dívidas! Qual seu poder de ação em nossas vidas? E qual a importância para o nosso bem estar ficar livre delas? Melhor ainda, não deixar que existam?

O educador financeiro José Vignoli, parceiro do nosso portal, é um dos especialistas entrevistados. O artigo na íntegra pode ser encontrado em www.uol.tab.com.br . Abaixo, trechos interessantes:

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A vergonha é o maior obstáculo para alguém chegar até a irmandade D.A. (Devedores Anônimos). Quem afirma é Rosa (nome fictício), 45, coordenadora de  uma das reuniões do grupo na zona Oeste de São Paulo.

Ela afirma que estava no fundo do poço quando foi ao local pela primeira vez, em 15 de agosto de 2008. “Admitir a falência é muito constrangedor. Existe uma sensação muito ruim de impotência, inferioridade, derrota, fracasso, perda de confiança e de dignidade. Como eu, que tenho duas faculdades, (…) ganhei milhões e estava então com o nome sujo? (…) luz cortada e oficial de Justiça à minha porta? Vendendo pão de mel em frente a uma igreja? Foi vergonhoso admitir que havia perdido o domínio sobre minha vida”, lembra.

Só a partir da aceitação – justamente o primeiro passo do programa – é que Rosa diz ter conseguido pagar tudo o que devia. (…) e ainda aumentou seu patrimônio. Mas aí está o problema: a vergonha vem de brinde com a dificuldade financeira. É grátis. E complica muito a chegada até o caminho que pode levar à solução.

“O primeiro passo consiste em admitir que da sua maneira nunca funcionou, não funciona nem vai funcionar. E aqui a vergonha é um ponto crucial: por causa dela, muitos não conseguem reconhecer a falência. Assim, acabam desistindo de se tratar”, afirma.

Esse tipo de dificuldade acerta em cheio a classe média, obcecada por pequenos luxos que não cabem no orçamento quando a situação aperta.

Há ainda uma geração de jovens adultos, nascidos após o Plano Real (1994). Para eles, lidar com uma verdadeira crise econômica era uma experiência inédita.

Como enfrentar essa novidade sem sentir vergonha? E você? Numa situação de apuros, acha mesmo que conseguiria pedir socorro a quem está perto (talvez dinheiro, talvez uma conversa)?

Não falar não elimina a dívida: está tudo lá, no extrato bancário ou, pior, nos órgãos de proteção ao crédito. A real sobre este problema é que, quanto mais se tenta esconder, mais ele aumenta.

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Existem muitos motivos pessoais e/ou sociais para uma complicação financeira.  Mas, independentes dos porquês, são grandes as chances dessa situação causar incômodo.

Há quem aparentemente não ligue para dívidas – pessoas muitas vezes chamadas (ou xingadas) de sem-vergonha. Mas não é esta a regra. A felicidade, aquela que o dinheiro supostamente não compra, parece se retrair diante do perrengue econômico.

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Pesquisa do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) realizada em outubro de 2016 indica que a vergonha é uma constante entre os inadimplentes: 43% a sentem perante família e amigos.

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Fracasso define o que sentiu a empresária e escritora Maureen Campaiola, 55, no dia em que recebeu uma ordem de despejo: “Foi como um tapa na cara”. Isso aconteceu em 2003, um ano após ter perdido o emprego. Devia US$ 50 mil no cartão de crédito e mais US$ 28 mil em créditos estudantis. Viciada em compras, a norte-americana fazia da vergonha sua fiel companheira. “Cada vez que abria a fatura do cartão, sentia um enorme constrangimento por ter gasto demais. Não queria que ninguém soubesse e mantinha minha correspondência fora do alcance de todos. Tinha muita vergonha da situação, porque eu havia criado aquela bagunça financeira. E não podia culpar ninguém [além de mim]”, relatou em entrevista por e-mail ao TAB.

Maureen também diz que o constrangimento cria uma bolha em volta de quem o sente e leva a um caminho de autodestruição. “Ao esconder nossos problemas, nos isolamos de pessoas e dos recursos que podem nos ajudar. Assim, perdendo a oportunidade de encarar a situação de frente e mudar. Quanto mais nos isolamos, pior fica.”

Se hoje Maureen fala abertamente sobre o assunto e até dá aconselhamento financeiro é porque conseguiu se reerguer – seu sucesso, afirma, começou também com a aceitação. A partir daí, montou uma empresa de limpeza. Diz ter pago tudo o que devia e ter trocado as dívidas por dinheiro guardado e investido.

COBRANÇAS

A vergonha se manifesta também na hora de detalhar o problema – etapa essencial para solucioná-lo. Segundo José Vignoli  (SPC e Meu Bolso Feliz), muitos endividados contam apenas uma parte da história.

“É como se um advogado elaborasse a estratégia de defesa e, na audiência, descobrisse um fato importante não mencionado pelo cliente. Se ficar um rabicho, a dívida só será resolvida em parte.”

Ele defende a clareza como o caminho para uma resolução mais rápida e adequada. E considera que muitas vezes nem o próprio endividado tem a real dimensão do problema. De acordo com o SPC, 42% dos inadimplentes desconhecem o número de parcelas de suas compras a crédito.

A funcionária pública Rosana (que pediu para não ter o sobrenome divulgado), 49, classifica como mais embaraçoso dessa situação os “absurdos” falados por atendentes das empresas de cobrança.

Pelo Código de Defesa do Consumidor, o inadimplente não pode ser exposto ao ridículo. Nem submetido a qualquer tipo de constrangimento.

“Além de ligar mais de dez, 15 vezes por dia, eles fazem perguntas do tipo: ‘Você declarou renda na época e agora não consegue pagar. Por quê?’. ‘Não pode pegar dinheiro emprestado com alguém?’.”

Para ela, essa abordagem amplia o problema – Rosana afirma que expôs o seu caos financeiro a pessoas próximas e diz ter recebido muito apoio.

Seu principal sentimento em relação às dívidas, diz, é a raiva por ter se complicado. Isso aconteceu após um problema de saúde, pois seu médico não atende pelo convênio. “Foram várias cirurgias e, assim, dívida em cima de dívida. (…) tudo que recebia estava comprometido. Entrei em desespero, fiquei sem um único tostão. Tudo atrasou, absolutamente tudo”, lembra ela, que hoje também faz quitutes por encomenda e está conseguindo se recuperar.

De fácil acesso, esse tipo de empréstimo mencionado por Rosana acaba sendo muito tentador para os envergonhados. Em contrapartida, os juros são altíssimos – quanto mais “fácil”, mais caro o dinheiro. “As instituições oferecem os valores de forma automática, não precisa conversar nem dar satisfação a ninguém. No momento dá um alívio, justamente aquilo que você busca. Mas logo passa e vem a culpa de ter se envidado por mais alguns meses ou até anos”, explica o designer gráfico Daniel (nome fictício), 29, que já se enrolou com cartão de crédito e cheque especial.

Note que temos aqui uma combinação perigosa formada por:

  • crise financeira,
  • cultura de parcelamento,
  • população analfabeta em termos de finanças e
  • crédito muito, muito fácil (e igualmente caro).

Um crédito mal dado é muito mais perigoso do que um crédito negado”, define Vignoli, do SPC, que define alguns anúncios desses benefícios como “criminosos”.

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As origens do constrangimento: uma sociedade cheia de apelos de consumo, na qual o sucesso está diretamente atrelado à condição econômica. Junte a isso o mantra do “eu mereço” e está criado um cenário ultracolorido de ofertas onde não há espaço para a palidez da dívida.

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Que fique claro: essa mudança de postura não deve ser explicada a qualquer conhecido, anunciada para os colegas de trabalho nem é preciso alterar seu status do Facebook para “endividado”. A ideia é desabafar com pessoas que realmente possam ajudar – se não com dinheiro, com apoio.

(…)

Fonte: www.tab.uol.com.br

Busca Google: Vergonha da Dívida

 

vignoli

José Penteado Vignoli

Consultor financeiro

Educador financeiro do portal MBF

Porta voz do SPC Brasil

www.meubolsofeliz.com.br

email: vigplan@uol.com.br