Trabalhar fora e cuidar: a jornada dupla da mulher que é um cuidador familiar

é possível?

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Quando eu era criança, achava que aos trinta anos estaria em uma situação profissional estável, casada e com filhos. Um papel de “cuidador familiar” era algo que não passava pela minha cabeça.

Não estou casada oficialmente, embora namore há nove anos. E não tenho filhos, ainda que a minha mãe seja quase uma filha. Também não tenho uma vida profissional estável. E tudo bem.

Levo uma vida de dona de casa, cuidando da minha mãe e da casa dela. Para isso, não ganho dinheiro algum.

Ganho amor, carinho e o reconhecimento de minha mãe e de pessoas que têm o coração bom e acreditam em uma sociedade com mais compaixão e amor ao próximo.

Acontece uma jornada dupla, para que eu possa ganhar dinheiro para sustentar as minhas despesas pessoais.

Não faço parte das filhas cuidadoras que já se aposentaram. Mulheres que criaram seus filhos e agora podem se dedicar ao cuidado dos pais doentes.

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Um pouco da percepção de minha vida

Tenho trinta e oito anos e muita vida profissional, pessoal e social pela frente. Por isso preciso me desdobrar para dar conta do recado de todos esses papéis. Tenho que agradecer por conseguir trabalhar em um formato mais flexível, o que me permite dividir melhor as minhas responsabilidades com tantas funções.

Busco dar o melhor que posso em tudo o que faço.

Perfeição não existe, mas um empenho genuíno sim. A culpa, essa vem de vez em quando e é preciso se perdoar nesses momentos.

É difícil, mas não impossível! Não sou a mulher maravilha. Ela é um personagem e não uma pessoa real.

O desafio de trabalhar em casa

Trabalhar é algo que gosto muito de fazer. Não me vejo sem o trabalho. Entretanto, tenho repensado a forma como estou lidando com essa questão. É muito fácil se tornar uma workaholic trabalhando em casa. Imagina como cuidador familiar?

No meu caso, não tenho chefe. Quem faz o meu horário, sou eu. Também não tenho uma rotina rígida porque ela depende da disponibilidade alheia. Então trabalhar à noite e aos finais de semana é uma situação comum na minha vida.

Qual é o limite? Venho me perguntando isso. Será que é bom trabalhar todos os Sábados e Domingos? Vejo que é difícil para todo mundo ter que trabalhar dessa forma. Ninguém consegue por muito tempo! Nem eu.

Nós nos cobramos sermos produtivos, gerarmos renda…

Mas nem sempre o curso das coisas acontece da forma como esperamos. Existem semanas em que chegamos na sexta-feira realizados, com a sensação de que foram dias produtivos, com resultados palpáveis. Que maravilha! É possível descansar um pouco.

No entanto, em outras semanas, sentimos que não fizemos nada concreto. Isso acontece porque precisamos resolver problemas pessoais ou da família, ou porque foi um momento de pesquisa, planejamento e prospecção de novos trabalhos.

Geralmente é nesse estágio que aparece uma certa ansiedade de querer render mais. Aí as atividades se prolongam para sexta à noite enquanto assistimos à TV com o namorado. (Sim! Cuidador familiar também pode namorar). Sábado ou Domingo à tarde enquanto o sol brilha em um imenso céu azul.

cuidar e trabalhar

A família e os amigos do cuidador familiar

A família e os amigos cobram a nossa presença. Porque é este o tempo que temos para estarmos com eles. Afinal, a maioria das pessoas labora durante a semana e não sobra tempo para o lazer.

Este, fica restrito aos finais de semana, férias e feriados (do trabalho fora).

Como nos organizarmos para conseguirmos fazer o nosso trabalho na melhor hora?

Sinceramente não sei dar uma receita de bolo. Imagino que irá depender das nossas prioridades, do ritmo, do ambiente, enfim de uma série de questões.

De segunda a sexta procuro deixar as partes da manhã para a minha vida pessoal: exercícios físicos, Reiki, banho, conversas, tomar um café reforçado e com calma. À tarde e à noite resolvo questões profissionais. Entre dezessete e dezenove horas faço uma pausa para estar com a minha mãe e lanchar com ela.

O principal é que venho buscando não trabalhar aos finais de semana e feriados.

No último feriado e nos dias que se seguiram não encostei a mão no computador. Vivi ótimos momentos com a minha família.

Deixei o trabalho para segunda-feira sem culpa.

Hoje está assim, no entanto me permito mudar quando isso se fizer necessário.

A cabeça no “aqui-agora”

Tenho sido cobrada para viver o aqui e o agora.

Essa é a forma mais eficaz de combater a terrível ansiedade. Ansiedade de fazer várias atividades ao mesmo tempo. De querer assegurar o meu futuro. De estar em uma reunião de trabalho e ter hora para chegar em casa a tempo de liberar a cuidadora. De cuidar da minha mãe e me divertir.

Fui cobrada pelo meu corpo com dores no peito, taquicardia, glicose alta, dificuldade para focar nas atividades e relaxar.

Havia prometido que iria me cuidar e por isso uma das minhas prioridades atuais é a saúde. Ela é a base de tudo, incluindo o sucesso profissional e pessoal.

O fato é que não é fácil se colocar em primeiro lugar, antes da sua mãe doente, do seu trabalho e de todos os outros aspectos da sua vida. O cuidador familiar tem esse desafio muitas vezes…

As pessoas não nos pedem para deixarmos as nossas vidas de lado por causa delas. Essa escolha é nossa. Fazemos por gosto, porque achamos que é o certo a fazer. Mas também para controlar a vida dessas pessoas. Ainda que com um objetivo nobre.

Medo de perder o controle

Dá medo perder o controle.

Mas isso é ilusão porque não controlamos nada. Podemos levar a vida mais saudável do mundo e desenvolvermos uma doença grave e crônica como uma demência.

Podemos também ter um ataque cardíaco fulminante indo passear ou dormindo. Podemos perder a reunião porque a funcionária faltou. E ainda podemos chegar mais cedo porque o trânsito estava bom. Quem sabe…

A vida é uma caixinha de surpresas! Temos que aprender a perder para ganhar. Encontrei um trecho tão lindo sobre isso nas “Mensagens de Jeremias Horta” que vou compartilhar aqui com você, pode ser que te toque o coração:

“Perder. Para cada coisa que perder ganhará mil. Quando buscamos algo, perdemos o que encontramos. Quando nos apegamos ao que buscamos, perdemos os momentos.

Os momentos são preciosos, são eles que nos tocam.

Quando temos metas rígidas, deixamos de ver e ouvir. As metas se fazem no caminho, no caminhar. Caminhar é perder, perder sempre.

A cada momento está perdendo vida, juventude, sonhos, pessoas, esperanças, crenças. Mas veja, a única coisa que não perdemos é o momento.”

Os desafios da tecnologia

A tecnologia é uma ferramenta incrível e que é fundamental como suporte nos desafios mais diversos. É por causa dela que consigo trabalhar em casa ou no sítio e conversar com pessoas que não estão fisicamente ao meu lado.

Também é ela que propicia a criação de uma grande rede de apoio como o projeto da Gal Rosa, “O Cuidador Familiar” que conecta e ajuda gente do Brasil todo.

É por precisarmos tanto da tecnologia que ela deve ser usada com parcimônia.

O celular tem uma relação pra lá de ambivalente no nosso universo particular. Se eu te contar que ao mesmo tempo em que escrevo esse parágrafo a minha mão quase coça, (não!) – coça mesmo, querendo pegar o celular que está em cima da mesa? Quero saber se chegou alguma mensagem nova.

Você acha que estou louca? Acontece com você também? Aposto que sim. É viciante estar conectada 24 horas por dia. Aguça a curiosidade, aumenta a criatividade, me mantém ligada e atualizada.

O negócio é saber quando desconectar da máquina e se conectar às pessoas que estão à sua volta vivendo o momento presente. Se te pedirem para deixar o celular de lado pode ser um sinal de alerta. Na vida pessoal e profissional, valorize quem está ao seu lado.

 

Um abraço!

 

 

 

 

 

Julia Bello

Cuidadora Familiar e Consultora de Imagem

Site: www.juliabello.com.br

E-mail: julia@juliabello.com.br

 

 

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