O que você precisa saber sobre quedas em idosos

maneiras inteligentes de se prevenir

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Nos Estados Unidos, a Academia Americana de Ortopedistas e a Associação de Trauma Ortopédico lançaram uma campanha em que o slogan era There are smarter ways to guard against falls, que traduzido para o português seria Há maneiras mais inteligentes para se prevenir contra quedas. Na imagem que ilustrava essa campanha há dois idosos sentados em um sofá, vestidos com aquele plástico bolha, como se assim estivessem protegidos contra lesões.

É claro que ninguém nunca pensou em fazer isso, mas a ideia foi realmente alertar a sociedade para um tema de grande impacto na saúde do idoso.  Está também subentendido que não é se mantendo sentado que o idoso estará se protegendo contra as quedas.

SEDENTARISMO E FRAGILIDADE

Realmente o sedentarismo não ajuda em nada. Já sabemos que a inatividade física é considerada fator de risco para uma série de doenças e suas complicações, como por exemplo, as doenças cardiovasculares, a depressão, as demências e o câncer.

E quando falamos em quedas, a associação é muito fácil de entender. Se não nos movimentamos, a musculatura tende à atrofia, as articulações se enrijecem, surgem dores, o apetite diminui e perde-se peso.

Tudo isso piora a fraqueza muscular e aumenta ainda mais o sedentarismo, ou seja, se torna um ciclo vicioso. É o que chamamos de ciclo de fragilidade, um “prato cheio” para o idoso cair.

CONTROLE POSTURAL

Os músculos são importantes por sustentar todo o esqueleto, mas o equilíbrio corporal depende de um sistema de controle. Os componentes desse sistema são os estímulos periféricos, o sistema nervoso central e o neuro-muscular.

Os estímulos periféricos são provenientes da visão, do labirinto e suas conexões e da percepção sensorial na pele, músculos e tendões. Eles funcionam como receptores que captam as informações do meio e do corpo e as enviam a uma central de controle localizado no cérebro.

Essas informações serão processadas e, a partir daí, ordens de comando são dadas  aos músculos, nervos e tendões, com o objetivo de manter nosso corpo em pé. Quando alguma perturbação externa aparece e esse sistema de controle do equilíbrio não funciona adequadamente, ocorre a queda.

FATORES DE RISCO RELACIONADOS AO ENVELHECIMENTO

É claro que o envelhecimento não é sinônimo de doenças, nem de quedas, mas o idoso está sob grande risco, principalmente os com mais de 80 anos, os mais dependentes e frágeis.

O envelhecimento leva a alterações fisiológicas que predispõe a quedas, como as que ocorrem na visão, audição, marcha e massa muscular.

visão periférica

As alterações na visão periférica, de profundidade, na visão noturna e de contraste podem prejudicar a ultrapassagem por obstáculos e degraus.

audição

A audição pode reduzir e o idoso pode não escutar o ruído do carro, de uma buzina ou de alguém alertando sobre o risco iminente de cair.

desequilíbrio

O desequilíbrio pode decorrer da própria postura do idoso, com o corpo mais encurvado para frente e um menor balanço dos braços.

massa e força muscular

A massa e a força muscular também tendem a um declínio, já iniciando a partir dos 30 anos, sendo que após os 80 anos se perde 50% da força muscular.

Essa fraqueza lentifica a marcha e pode ser um problema para o idoso se colocar de pé sozinho.

QUEDAS E DOENÇAS

E também há várias doenças que podem gerar quedas, como as vertigens, a hipotensão postural (queda da pressão arterial ao ficar em pé), artroses, Parkinson, neuropatias, demências, incontinência urinária, hipoglicemia, convulsões e anemia.

A queda pode ser ainda o indício de uma doença aguda, como uma pneumonia, infecção urinária ou desidratação.

QUEDAS E REMÉDIOS

E não podemos esquecer dos remédios! Sim, aqueles que tomam 4 ou mais medicamentos têm um maior risco de cair. Com o aumento de doenças crônicas na velhice, como hipertensão e diabetes, os idosos acabam consumindo drogas de uso prolongado.

Muitos desses remédios  podem ter efeitos adversos, como hipoglicemia, tontura e queda na pressão arterial. Temos ainda os famigerados psicotrópicos, como anti-depressivos e sedativos.

Eles causam sonolência, reduzem a atenção, e também podem provocar tonturas e quedas na pressão.

A auto-medicação é muito comum e infelizmente muitas drogas são ingeridas sem qualquer preocupação com seus efeitos adversos.

CONSEQUÊNCIAS DAS QUEDAS

Por todos esses fatores, os idosos estão sob um maior risco de quedas e complicações. Um terço das pessoas com mais de 60 anos caem uma vez por ano, e após os 85 anos esse índice sobe para 51%.

Outra estatística que preocupa é que metade dos idosos que caem são considerados caidores, ou seja, vão continuar caindo. As quedas causam lesões em 40 a 50% dos casos e em 5% há fraturas.

Em 8% das quedas os idosos são hospitalizados, aumentando o tempo de internação e até mesmo o risco de morte no ano seguinte. A dependência é algo muito temido por todo idoso, e após uma queda, pode haver redução da independência e da mobilidade em 20 a 30% dos casos.

A morte infelizmente é uma consequência possível no idoso que cai, sendo considerada a primeira causa de morte acidental nesta faixa etária.

O MEDO DE CAIR

Temos que falar ainda do impacto psíquico secundário às quedas. O mais reconhecido é o medo de cair. São idosos que se tornam extremamente inseguros após uma ou mais quedas.

A  marcha fica mais rígida, lenta, com menor elevação dos pés, e que só aumenta o risco de cair. Até mesmo idosos que nunca caíram podem apresentar estas alterações.

Muitos desses idosos só conseguem deambular se segurando em alguém, resultando em uma restrição importante de suas atividades.

O isolamento social e a depressão são consequências frequentes nesses indivíduos.

 

QUEDAS E CUSTO SÓCIO-ECONÔMICO

Além de todo esse impacto na saúde física, psíquica e social, não podemos deixar de mencionar os custos financeiros relacionados às quedas.

Esse custo é tanto do sistema de saúde quanto do familiar, com exames, medicamentos, internações e cirurgias.

Para o familiar, soma-se ainda o gasto com cuidadores e/ou a perda financeira decorrente da necessidade de parar de trabalhar para cuidar de seu ente querido.

 

(Clique na imagem para saber mais)

UMA CASA SEGURA CONTRA QUEDAS

Os fatores ambientais são responsáveis por 25 a 35% das quedas. Para os idosos mais ativos, elas ocorrem principalmente fora de casa.

Já os mais frágeis caem geralmente dentro do domicílio.

  • A casa pode oferecer muitos perigos e todos devem estar muito atentos.
  • O piso deve estar seco, não deve ter obstáculos e nem tapetes.
  • As cadeiras devem ter braços para apoio e sofás e camas não devem ser baixas, para evitar um esforço maior do indivíduo e um consequente desequilíbrio.
  • Os cômodos devem ser bem iluminados e à noite deve ser deixado um abajur ligado ou luz de emergência no corredor.
  • O interruptor de luz deve estar próximo à cama, para que a ida ao banheiro seja bem segura.
  • No banheiro deve haver tapete emborrachado no box, e para aqueles idosos que já caíram ou tem risco de quedas, deve ser adaptado um banco para que o banho seja tomado sentado.
  • Barras de apoio no box e no vaso sanitário também são recomendações de uma casa segura para idosos.
  • As escadas devem ter corrimão e faixas que sinalizam os degraus.
  • Os calçados também devem ser seguros, bem ajustados nos pés, principalmente ao nível dos calcanhares. Deve-se evitar saltos altos, chinelos de dedo e os emborrachados.
  • Varais de roupas não devem ser altos e as roupas, utensílios e materiais de cozinha devem estar bem acessíveis.

COMPORTAMENTOS DE RISCO PARA QUEDAS

  • Por último, há vários comportamentos de risco:
  • Subir em banquinhos, em escadas, andar de meias, com roupas longas, expõe os idosos a quedas que podem causar lesões muito graves, como as temidas fraturas.
  • O uso de certos calçados também podem “derrubar” os idosos. Os mais perigosos são aqueles de salto alto, de solado liso, os chinelos de dedo e os emborrachados.
  • Óculos, aparelho auditivo, bengala e andador são muito importantes na prevenção, mas devem ser usados.
  • A própria resistência do idoso em receber ajuda do familiar ou cuidador deixa esse indivíduo mais desprotegido.

OSTEOPOROSE

A osteoporose é uma doença que necessita ser investigada em todo idoso. Os ossos se tornam mais frágeis e uma queda pode desencadear as temidas fraturas.

Como a osteoporose geralmente não dói, ela precisa ser rastreada. O exame que confirma o diagnóstico de osteoporose é a densitometria óssea, um exame muito simples, que não precisa de qualquer preparo.

Na presença de osteoporose, há indicação de tratamento, com o objetivo de melhorar a massa óssea e prevenir fraturas.

Além do cálcio e da vitamina D, existem medicamentos disponíveis que impedem a reabsorção óssea e que tem efeito anabólico.

PREVENÇÃO DE QUEDAS

O mais importante é sempre a prevenção, seja para a primeira ou para novas quedas. Uma vida ativa, engajada em atividades sociais e físicas é o primeiro ponto.

Os relacionamentos sociais dão propósitos,  protegem contra depressão e favorece a prática de atividade física.

Todo exercício físico é válido, porém é importante conciliar aqueles que melhoram a performance cardiovascular, a força e o equilíbrio.

Só a caminhada previne? Não, é necessário associar exercícios de força e equilíbrio, como musculação, natação, hidroginástica, Tai Chi Chuan, Yoga, Pilates.

Para idosos frágeis ou que já caíram, o olhar tem que ser mais atento, pois o exercício pode até aumentar as quedas.

Uma boa e ampla avaliação geriátrica deve verificar e tentar corrigir todos os fatores de risco e revisar todas as medicações.

A reabilitação com profissional de fisioterapia é fundamental para idosos mais frágeis, com o objetivo de ganho de força e equilíbrio.

A nutrição é parte muito importante da intervenção, principalmente em idosos frágeis e que perderam peso.

Todos nutrientes são necessários, mas chamamos a atenção para cálcio e proteínas, para o fortalecimento ósseo e muscular.

 

Dr Virgílio Moraes Ferreira | CRM 109796

geriatra, especialista em saúde da família,

e desenvolvedor do AME SEU CÉREBRO

site: www.drvirgilio.com.br

email: virgiliomofer@hotmail.com

 

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