O papel de cuidar: é só da mulher?

pensando numa cultura de cuidados

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A energia do cuidar é feminina, mas isso não significa só mulher. Ambos os gêneros tem as duas energias.

O CUIDADOR FAMILIAR COMO REFERÊNCIA SOCIAL

Cá estou eu aqui na TerceiraIdade.Net novamente para falar um pouco mais da minha experiência como cuidadora familiar.

Outro dia, estava em uma reunião de representantes de diversos órgãos do governo estadual/municipal para falar sobre políticas públicas para o envelhecimento. Apesar de acanhada, fui chamada a me apresentar.

Embora todos ali tivessem muito mais credenciais para tratar do assunto, não sofri qualquer tipo de preconceito. Pelo contrário, fui incentivada a falar sobre a minha experiência como cuidadora familiar de uma idosa com demência, a minha mãe.

Esse reconhecimento me motivou a me posicionar cada vez mais sobre o assunto.

Por isso, sigo realizando a tarefa de escrever e falar sobre o que acontece comigo e com a minha mãe. Apesar de não ser uma especialista diplomada na escola, tenho me especializado nas dificuldades e potencialidades diárias.

Leio, converso, ouço, observo. Relaciono assuntos diversos e vou construindo o meu conhecimento autodidata. Não digo que as minhas opiniões são verdades absolutas. Podem ser úteis para outros e para mais um tanto, inúteis.

O importante é levantar discussões e reflexões. Quem pensa, opina e acaba agindo.

 

O PAPEL DOS GÊNEROS NO CUIDADO

Já parou para pensar em como a nossa sociedade ainda se pauta em regras sociais muito tradicionais?

Por exemplo: o papel de cuidar de um idoso dependente na família continua sendo feminino.

No entanto, é bom refletirmos sobre a pergunta: o papel de cuidar é só da mulher?

Não acredito nisso. Cuida quem se preocupa, tem carinho, amor. Se não existe um laço emocional positivo ali, penso que esse cuidar se torna uma obrigação. De obrigação a maltrato é um pulo.

Vamos para o dicionário? O que ele fala sobre o significado de cuidar?

O Michalelis diz que “cuidar é agir com prudência; prestar atenção; tratar (-se) com esmero; interessar-se por algo; tratar da saúde; prevenir-se contra alguma situação de perigo.

E o descuidar? Seria “tratar sem cuidado, não fazer caso, negligenciar, ficar desatento, distrair-se, descurar.” Que interessante! Será que o bem cuidar contribui para a cura/melhora dos doentes? Claro que sim!

Dá para perceber que cuidamos das pessoas, mas também de nós mesmos. Isso é fundamental. Não dá para ter carinho pelo outro se não estamos bem.

Seja esse bem-estar físico ou psicológico. Com boa vontade vamos alcançando resultados positivos. O interesse e o tratamento contínuo fazem a diferença!

Percebo que no dia em que não estou bem disposta, como foi o início do dia de hoje, fica complicado ter paciência e levar as situações com leveza. Por isso é preciso se cuidar.

Prometi em outro texto que iria fazer isso e estou correndo atrás. Mas leva um tempo até equalizar todo um organismo complexo como o nosso. Chego lá!

Os homens e o cuidar

Então, como é a situação dos homens dentro desse quadro?

Dá uma avaliada no que o Michaelis fala sobre a mulher.

“O ser humano do sexo feminino que apresenta características consideradas próprias do seu sexo, como delicadeza, carinho, sensibilidade etc”.

E o homem? Homem “dotado de atributos considerados másculos, como coragem, determinação, força física, vigor sexual etc.; macho.”

Tenho lido muito sobre a visão oriental do ser humano. Eles alegam que todos nós somos constituídos por energias opostas. Dessa maneira, nessa visão, seríamos uma mistura de masculino e feminino. Assim, para considerarmo-nos seres equilibrados, precisaríamos ter um pouco de cada um: feminino e masculino.

No meu caso, além da delicadeza, do carinho e da sensibilidade, preciso ter também coragem, determinação e força para conseguir trilhar o meu caminho. O mesmo vale para os homens.

Só que a sociedade ainda cobra desses homens que sejam o excesso da energia máscula. O homem que demonstra fragilidade, ou é considerado fraco ou homossexual.

Precisamos parar de rotular as pessoas. Se o homem não tiver espaço para ser quem ele deseja ser, fica complicado para ele assumir papéis antes atribuídos às mulheres, como o cuidado.

Claro que existem exceções à regra. Mas são poucas. O homem ainda sofre preconceito por assumir as funções “femininas”. Imagino que seja algo que venha da educação, da infância.

Os meninos são estimulados a sair de casa com os amigos, ir a festas, namorar, brigar.

As meninas de família precisam ter mais cautela, aprender a cuidar da casa, dos bichinhos, estudar e se divertir com moderação.

Se você não se casou, é certo que o cuidado dos pais ficará por sua conta.

No entanto, se casou, mas é a única filha mulher, o cuidado dos pais continua sendo seu.

Em famílias aonde os filhos são todos homens é muito comum que as noras cuidem dos sogros.

Essa interação depende de um contexto de regras, atitudes e valores geracionais. Vejo que o que acontece na minha geração, também acontece nas gerações anteriores.

Na minha casa, como somos todas mulheres, coube a mim, a única solteira, a tarefa de cuidar da minha mãe. Na casa da minha avó por parte de mãe, a função de cuidar dela ficou por minha conta e da esposa do meu tio. Ele, como filho, prefere não se envolver demais.

Na casa da minha avó paterna, o cuidado dela também ficou por conta de uma tia que se dispôs a isso por morar próximo dela. E na sua família, como funciona?

OS CUIDADOS EM CADA GERAÇÃO

Para as pessoas que nasceram entre 1980 e 1995, estipulou-se o nome de Y ou Millennials.

Os nascidos entre 1960 e 1979 são chamados de Geração X.

Os pais da Geração X são os Baby Boomers, nascidos entre 1940 e 1959. Esses termos são o resultado de anos de estudos realizados por sociólogos e pesquisadores de inúmeras áreas. Todos buscam compreender o modo de agir de um determinado grupo em um recorte de tempo específico.

Como boa pesquisadora e curiosa, busco entender as qualidades e os defeitos dessa turma. Aonde incluo eu mesma!

Nasci bem na mudança de comportamento de X para Y, em Dezembro de 1979. Considero que tenho influência das duas gerações. Dizem que os X não são pessoas muito engajadas. Individualistas, buscam o sucesso financeiro na carreira. Caso tenham filhos, querem fazer o melhor em sua educação.

Por isso mesmo, sobra pouco tempo para interagir com os seus pais entre a rotina do trabalho, da casa e dos amigos.

Como remanejar esse planejamento para cuidar dos pais em caso de necessidade? Estarão dispostos a isso ou irão terceirizar o cuidado?

Nesse caso, um cuidador profissional assumiria o cuidado. É bom lembrar que esses cuidadores são, em sua maioria, mulheres.

O que eu busco fazer é não abrir mão da minha carreira e ainda assim cuidar da minha mãe. Divido o cuidado dela com alguns profissionais contratados.

É cansativo, mas compensa pela minha autorrealização pessoal e profissional. No entanto preciso ficar de olho nos meus níveis de ansiedade e stress.

Os Y possuem grandes expectativas em relação à sua vida. Se sentem especiais e esperam que o mundo os trate dessa forma. Cresceram no meio digital, aonde encontram as informações que necessitam para trabalhar e socializar. Não vivem para o trabalho. Querem se divertir!

A minha impressão é que enquanto a relação com os pais não envolve muita responsabilidade por parte deles, tudo está bem. No entanto, o que acontece se os pais ficarem doentes e não puderem mais ajudá-los? Seja custeando uma despesa ou ajudando na criação de seus filhos.

Será que estarão preparados para uma situação aonde precisarão cuidar da saúde dos seus pais? Como ficaria a sua liberdade nesse processo?

A verdade é que nem os seus pais querem que eles tenham esse “fardo”.

Entretanto, como serão cuidados esses pais? Sabemos que não teremos estrutura externa para essas funções. Por isso, caso aconteça um cuidado dentro de casa, quem irá gerenciar e bancar o custo disso? Ocorrerá da mesma forma que acontece com os X? A resposta é contratar ajuda de fora?

A próxima Geração é chamada por Z. O período de influência considerado vai de 1995 a 2010. Como será que esses jovens irão lidar com o assunto? É uma grande questão.

Provavelmente irão construir robôs que farão o papel deles como cuidadores familiares. Irão monitorar via vídeo e internet a distância. Quem sabe o que está por vir?

De repente teremos uma surpresa ao descobrir que com o trabalho mais flexível à distância, poderiam também gerenciar o cuidado com os pais, assim como eu faço hoje.

Tanto os homens quanto as mulheres poderiam fazer esse papel dentro de um contexto de igualdade de gêneros.

Espero que cada um de nós consiga planejar a sua velhice para que ela seja vivida da melhor forma possível: com saúde, conforto e amor.

Eu quero morar em um lugar lindo com muito verde. Não sei quem cuidará de mim. Espero poder pagar por isso. E você? Como se imagina?

Com carinho,

Julia Bello

Cuidadora Familiar e Consultora de Imagem

Site: www.juliabello.com.br

E-mail: julia@juliabello.com.br

 

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