O Natal de Um Cuidador Familiar

crônicas de um cuidadora familiar

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Todo fim de ano traz as agitações das festas, dos gastos, das ceias… E em meio a tudo isso o cuidador familiar sobrevive. Ou, tenta sobreviver! Talvez fazer um empenho para olhar tudo de forma diferente e com significado ajude um pouco.

Recordar o sentido do verdadeiro Natal, desenvolver mais o lado doador e amadurecer para a vida como ela é, também pode ajudar.

presepio

LEMBRANÇAS DA INFÂNCIA

Apesar de a minha mãe ter sido criada no catolicismo, ao longo da vida a sua escolha foi por não permanecer como uma praticante diária dessa religião. No entanto, alguns rituais, como aqueles que estão relacionados ao natal, continuaram a fazer parte da sua história. Recordo-me até hoje que uma de suas maiores alegrias era montar um enorme presépio!

Com musgos, caverna, lago o presépio era povoado por figuras criadas por nós durante momentos de lazer em família.

Depois de passarmos horas amassando e enrolando pedaços de argila, saíam corpinhos, cabeças, bracinhos, pés e mãos. A seguir era a vez de fabricar detalhes como olhos, bocas, cabelos e roupas. Assim que as peças estavam secas e as pintávamos com tinta para realçar todo o trabalho.

Como amávamos esses dias de grandes atividades! A casa ganhava uma atmosfera única, com a nossa cara. Cantávamos cantigas de natal. Eram momentos felizes.

Nunca foi uma decoração copiada das lojas chiques que mostram um natal digno de capa de revista de fofocas. Mamãe preservava inclusive, enfeites herdados dos seus pais e avós.

Uma pena serem de vidro e por isso terem se perdido no tempo em meio a tantas montagens de árvores de Natal.

A ÁRVORE DE NATAL

Aliás, a árvore de Natal era um capítulo à parte! Por um bom número de anos a nossa árvore era feita de pinheiro natural. Às vezes somente um galho, outras vezes a árvore inteira. A sua origem era diversa.

Por isso podia ser alta, baixa, torta, cada ano uma novidade. Nunca se sabia qual seria a sua aparência.

Alguns anos se passaram e começaram a aparecer árvores artificiais vindas dos Estados Unidos. Por comodidade da vida moderna, esse costume foi adotado e a nossa árvore passou a ter sempre a mesma identidade. Padronizada, como as árvores de uma imensa maioria.

Hoje me deu muita saudade da minha árvore de verdade, com cheiro de natureza, de vida e com as suas particularidades. Montei a árvore de mamãe na sexta passada, quatorze de Dezembro. Árvore artificial, base de metal e folhas de plástico. Mais um produto made in China. Investimento feito por ela há anos atrás.

O PESO DE SE SENTIR SÓ NO NATAL

Não me lembro de um Natal que tenha demorado tanto para decorar a casa. Até o meu namorado estranhou, acostumado a ver a minha empolgação com as festas de fim de ano. O que tem de errado com você?

Ele me perguntou. Não soube responder. Mas tive o seu apoio para realizar a tarefa. Acho que ouviu as minhas preces. No meu interior rezava para que ele se oferecesse para me ajudar.

Esse é um momento que foi sempre tão família, e uma família numerosa, de quatro filhas. Acho estranho fazer essas coisas quase que sozinha. Mamãe ainda demonstra certo entusiasmo, mas ele não dura muito e a sua contribuição é um tanto limitada.

Para dizer a verdade, depois de colocar alguns enfeites na árvore de Natal, está mais preocupada em guardar as caixas e arrumar a bagunça!

Ainda não sei exatamente o que penso sobre os momentos de Natal. Talvez na minha idade mais tenra, tenha vivido tudo isso sem filosofar de forma aprofundada sobre essa tradição.

Afinal, fui ensinada a reproduzir um comportamento, perpetuando uma cultura que nem sei se faz realmente sentido para o que acredito como uma mulher adulta.

REFLEXÕES SOBRE A ORIGEM DO NATAL

Por que comemoramos mesmo o Natal?

De acordo com a religião católica é o nascimento de Cristo. Assim os presentes trocados nesse dia representariam os presentes dados a Jesus em virtude da sua estreia no mundo como o representante de Deus, que veio nos salvar de nossos pecados.

A ele foram oferecidos ouro, incenso e mirra. São itens simbólicos, que retratariam a riqueza divina, a espiritualidade e a proteção contra doenças.

Ouve-se que o Papai Noel tenha sido inspirado no bispo São Nicolau que dizem, distribuía presentes para os mais pobres.

Mais tarde ganhou uma aparência mais bonachona e que foi popularizada por uma famosa empresa de refrigerante a partir da década de 30. Por que presenteamos nessa data? A quem presenteamos? Ou, como presenteamos?

Cada um tem a sua resposta.

UM NOVO SENTIDO PARA O NATAL

Para mim o Natal seria uma época de nascimento ou renascimento, uma vez que ele acontece todos os anos.

Dessa maneira, pode ser interessante refletir sobre o que foi que eu aprendi durante esse ano que passou que me fez renascer como pessoa e ressignificar a minha vida de alguma forma.

E, talvez, se não aconteceu nenhum tipo de transformação em mim, será que eu poderia ser capaz de ajudar a realizar algum tipo de transformação na vida de outra pessoa?

Conecto-me aos valores que se relacionam ao Natal como a generosidade, a fraternidade e a união, principalmente da família.

E como fico triste em ver que essas palavras são por vezes, esquecidas por nós. Por que é tão difícil viver em família? Por que é tão difícil enxergar o outro da maneira com que ele gostaria ou precisaria ser visto?

É um exercício constante de vigília, porque o egocentrismo ataca silenciosamente, quase todos os dias. E ele não está errado em parecer de forma dosada, pois precisamos nos cuidar.

O que não pode, a meu ver, é voltar o olhar para o próprio umbigo e não enxergar todo um ambiente complexo que está à nossa volta e que está diretamente conectado à nossa existência.

O NATAL COM A FAMÍLIA

E aí, como é que faz para passar alguns momentos de alegria durante o Natal, reunindo todos da família, incluindo a pessoa doente?

Será que ela é acolhida pelos seus parentes de forma verdadeira e amorosa? Será que ela consegue vivenciar o espírito do Natal?

Será que eu, como cuidadora, consigo vivenciar essa experiência de maneira positiva?

São muitas questões e não existe nenhuma regra. Cada família e cada cuidador precisa se adaptar à sua realidade da melhor forma.

Isso foi algo que aprendi escutando outras pessoas e buscando vivenciar de maneira intuitiva e ao mesmo tempo consciente a minha própria vida.

Ano passado a minha mãe participou dos festejos da mesma forma que o fez desde sempre. Assim acompanhou a reunião noturna, trocou presentes, ceiou e, por incrível que pareça ainda esperou-me enquanto ajudava a minha avó a se preparar para dormir.

Voltamos para casa por volta de 1 hora da manhã, bem depois do restante dos convidados terem ido embora.

Um ano se passou e hoje não consigo visualizar a minha mãe passando pelo mesmo ritual. O seu horário de dormir está cada vez mais cedo, assim como o horário da sua refeição. A minha avó, de quase cem anos, idem.

Percebo o quanto é difícil para a família aceitar mudanças em suas tradições, mesmo que por motivos de força maior, como a saúde. Eu mesma custei a admitir que alguma alteração precisava ser feita.

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QUEBRANDO PARADIGMAS

Ter que ser a liderança em processos de quebra de paradigmas pode ser bem cansativo. Não somente o estresse físico está envolvido, mas também o emocional.

Não é fácil ter que comprar certas brigas, desafiar determinadas oligarquias familiares.

Muitas vezes você é incompreendido e precisa se blindar contra certas reações porque ainda não está claro para a sociedade que não é o idoso que precisa se adaptar aos lugares e situações, mas o contrário.

Eu me sinto esgotada. Mas tenho que tirar ânimo de pedra, literalmente. Porque sei que preciso ser o porto seguro do Natal das minhas queridas matriarcas que hoje já não conseguem exercer a sua autonomia e independência em sua plenitude.

No entanto, o desafio do cuidador familiar não para por aí.

O NATAL DO CUIDADOR FAMILIAR

O Natal da minha mãe será de dia, nos dias 24 e 25 de Dezembro. Na noite do dia 24 faço questão de estar em casa com a mamãe, mesmo que ela vá dormir cedo.

Dói ver que não são todos que pensam como eu. Sugeriram-me contratar alguém para ficar com ela para que eu possa sair.

É Natal poxa! Não faço isso com a mamãe não, porque não gostaria que fizessem isso comigo. Natal é em família.

Não minto que me deprime pensar em estar sozinha na noite do dia 24, porque Natal para mim é animado, com bastante gente. Então tive que pedir a companhia das irmãs que pouco estão presentes, por motivos diversos.

Pedir a presença do pai, que está sempre por perto, mas que pode não entender a minha aflição.

Sempre fui muito família, apesar de gostar de sair também com os amigos. Desde que os meus pais se separaram, me dói não ter mais a família a qual estava tão acostumada.

A gente tem que se habituar aos novos arranjos, no entanto, a falta está sempre ali. Mas não dá para viver no passado porque isso adoece.

Então o que me resta é fazer o que posso, comer uma boa comida e cantar para espantar o baixo astral.

A comida é a minha “arma secreta” para a união feliz em torno de uma mesa. É sempre um ótimo pretexto celebrar a vida com uma bela receita. Esse é um dos verdadeiros presentes para mim.

Com carinho,

Julia Bello

foto julia bello 2018

 

 

 

 

 

Cuidadora Familiar e Consultora de Imagem

Site: www.juliabello.com.br

E-mail: julia@juliabello.com.br

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1 comentário
  1. Maria José Fernandes de Oliveira Diz

    Júlia, sua crônica é muito linda. Me identifiquei com várias passagens; com o galho de Pinheiro, que a noite exalava o perfume pela casa toda, e as rotinas Natalinas alteradas e nem sempre aceita por todos. Outro item que me chamou a atenção é qdo você lembra da responsabilidade de decidir por eles.
    Hoje na minha casa/mãe, não temos mais ceias e amigos secretos, dormimos cedo , somente eu e ela. O Natal é comemorado com um almoço para quem puder aparecer.
    Mas é Natal tempo de lembrar e lembrar uma das muitas mensagens do Aniversariante. ” Amar ao próximo como a ti mesmo “.
    Feliz Natal queridas Júlia e Gal.?

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