Fatores que interferem na sua alimentação

a complexidade envolvida no ato de alimentar

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Sabemos o quanto é difícil adotar uma dieta ou simplesmente mudar hábitos alimentares. Como é complicado recusar uma refeição oferecida por um amigo ou ficar sem comer algo que as pessoas comem na sua frente e que talvez você tanto goste.

A alimentação pode ser observada como um fenômeno a partir do momento que compreendemos fazer parte deste ritual aspectos relacionados as nossas emoções, nosso estado psíquico, nossos desejos por preenchimento na vida. E, claro, nossa necessidade maior: sobrevivência!

Falar de alimentos e alimentação é algo bastante complexo devido à natureza multidisciplinar do assunto. Ao mesmo tempo, o tema revela-se justamente interessante devido à união de contribuições de diferentes áreas de conhecimento.

Uma pesquisa realizada pelo European Food Information Council (comparando dados entre Brasil e Europa) nos trás informações capazes de mudar nossos conceitos para o que podemos considerar alimento e sua importância para nossa saúde e bem estar.

Os pesquisadores observaram muitas semelhanças inclusive entre classe social baixa e alta, entre brasileiros e europeus, em relação aos atributos nutricionais dos alimentos e à sua associação como bons ou maus para a saúde.

Ou seja, a relação do ser humano com o alimento parece ser única para qualquer um, em qualquer lugar do mundo.

Tanto a Psicologia, a Antropologia, a Sociologia e a Ciência da Nutrição, mostram os inúmeros conflitos, dilemas e paradoxos que cercam o tema e a sua relação com a saúde.

Vamos ver as respostas encontradas?

Abaixo compartilho os fatores que influenciam nossa relação com o alimento:

SER MAGRO

As mídias e o mundo da moda definem “ser magro” como o corpo ideal. Esta é uma influência psicossocial muito forte.

Ao mesmo tempo temos um aumento do peso médio da população: o corpo real “é gordo”.

Assim temos um aumento de pressão para que a população alcance o ideal corpo magro, uma vez que o ideal é sempre melhor do que o real.

“Ser magro não é apresentado apenas como atrativo físico, mas é também associado a sucesso, poder e outros atributos superiores. Estar acima do peso, por outro lado, está associado a alguém não saudável fisicamente e também preguiçoso, relaxado, malandro (Dejong, 1980)”.

PONTO PARA REFLEXÃO: qual é o corpo realmente ideal para VOCÊ?

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IDADE X ALIMENTAÇÃO

As crianças adotam os hábitos alimentares dos adultos.

Já os adolescentes confrontam-se com uma dualidade: eles sabem quais são os alimentos “de verdade” mas consideram a chamada junk food (pizza, hamburger, batata-frita, sorvete etc.) mais atraentes.

A pesquisa mostra que os adolescentes gerenciam essa dualidade de acordo com o contexto social: “em casa ou com autoridades, como professores, eles comem a “comida de verdade” mas, em grupo, a opção recai sempre no junk food.”

Na idade adulta os padrões alimentares que predominam são aqueles adquiridos na infância.

Quanto aos idosos, estes têm despertado interesse em pesquisas voltadas para a saúde, uma vez que o organismo idoso apresenta uma série de  modificações com relação aos mais novos.

PONTO PARA REFLEXÃO: quem é o mais responsável para que a sociedade se alimente melhor? Crianças, jovens, adultos ou idosos?

Muitos estudos foram realizados utilizando abordagens históricas, antropológicas ou sociológicas, que procuraram entender dualidades em relação aos alimentos: falta x abundância, banquete x jejum e pobreza x riqueza.

Como cada cultura interpreta isso?

Todos esses dilemas estão intimamente relacionados, pois todos estão ligados à quantidade de alimento disponível a um determinado grupo de pessoas e como este grupo têm acesso a esse alimento.

“O bem-estar material está relacionado à posse de muitos bens, incluindo muitos tipos de alimentos”. (Bell & Valentine, 1997).

A ALIMENTAÇÃO NA CONTEMPORANEIDADE

Alguns exemplos contemporâneos verificaram a seguinte relação: quanto mais dinheiro, mais variedades de alimentos, mais chances de “ter uma melhor condição nutricional”. Mas também facilmente percebemos que o consumo por industrializados, prejudiciais à saúde, aumenta nesta classe.

Muitos estudos da década de 80 revelam o desejo por recuperar a pureza e a naturalidade perdida com a sociedade urbana.

Alimentos que associam saúde com o consumo reduzido de alimentos processados e artificiais ou evitando o consumo de alguns produtos de origem animal.

Porém nesta mesa década observamos também um grande crescimento do número de mulheres no mercado de trabalho, que passaram a demandar alimentos mais convenientes no seu preparo e, com certeza, mais industrializados, o que gera mais um conflito na questão alimentar.

PONTO PARA REFLEXÃO: como economizar tempo no preparo das refeições e procurar as opções mais saudáveis para a família? Quais são as opções mais saudáveis?

Esta demanda faz surgir novos produtos nos supermercados: saladas prontas, legumes picados, super sucos naturais engarrafados. Além de fomentar restaurantes com cara de “comida caseira” bem próxima ao natural e simples ou comidas lights e frescas. Um mercado diverso surge a partir daí.

 

A importância da cultura na determinação do que comemos

Antes de ingerir algum alimento é preciso ser capaz de reconhecê-lo, identificá-lo, entender o seu lugar na sociedade e classificá-lo como apropriado.

Devemos levar em conta costumes, tradições, gosto, reconhecimento do que pode ser alimento para a cultura local. Sendo assim, nem tudo que é alimento deve ser adequado ao consumo, de acordo com as tradições.

Por exemplo: a casca da banana, que geralmente vai para o lixo, não é considerada adequada ao consumo mas é um super alimento. Porém, a cultura local tem que descobrir, reconhecer e aceitar isto como fato.

Desta forma, consideramos os alimentos como adequados ou inadequados de acordo com a relação e a cultura que criamos com eles.

Outra percepção interessante está no ditado parodiado “diz-me o que comes que dir-te-ei quem és”.

Esta frase pode ser ilustrada percebendo que a nossa “comida misturada” tem tudo haver com a mistura de raças em nosso país.

Ou como já disse Lévi-Strauss “somos o que comemos”. Mas também, o que comemos, somos!

 

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COMIDA X NUTRIENTE

Como conceituar a diferença entre estes dois termos: comida e nutriente?

Comida parece envolver fatores como estímulos sensoriais, preferências, relações sociais, relações com a natureza e meio ambiente.

Já o conceito para nutriente (alimento) entendemos como aquele elemento presente (ou não) no alimento que promove (ou não) saúde para o nosso corpo. Para nós, brasileiros, nem tudo que alimenta é sempre bom ou socialmente aceitável.

Do mesmo modo, nem tudo que é alimento é nutritivo, uma vez que a relação estabelecida com o nutriente é individual, vai de organismo para organismo.

“A universalidade do alimento é que diz respeito a todos os seres humanos, enquanto a comida se refere ao costume, o que auxilia as pessoas grupos ou classes a se identificarem.”

A HISTÓRIA DA NOSSA ALIMENTAÇÃO

Nos parece que a influência mais salutar para nossa mesa foi a do africano que possuía um regime alimentar mais equilibrado que o branco e introduziu muitos vegetais na alimentação do brasileiro.

A nutrição da família colonial brasileira, dos engenhos e das cidades trazem relatos que nos surpreende pela má qualidade da dieta brasileira: falta de proteínas, de vitaminas, de cálcio, de outros sais minerais e, por outro lado, uma dieta rica de toxinas.

“A História da Alimentação no Brasil, pelo historiador e antropólogo Câmara Cascudo (1984), mostra a visão do problema alimentar do brasileiro no tempo e a extensão de sua delicadeza por agir, segundo o autor, sobre um agente milenar, condicionador e poderoso: o paladar.”

Mas pessoas nos demonstram preservar sua alimentação tradicional por alguns outros motivos:

  • estão habituadas,
  • apreciam seu sabor,
  • é a mais barata,
  • acessível ou conveniente.

Assim, a compreensão da cultura popular dificilmente se renderia a uma imposição legislativa ou a uma pregação teórica tentando “ensinar e educar” sobre a melhor forma de se alimentar.

       

Não é fácil falar dos aspectos negativos de um alimento quando seu consumidor é habituado e apegado ao seu sabor.

Mesmo com todas as informações disponíveis na mídia sobre os alimentos e seus atributos nutricionais, pode-se pensar quantos “jeitinhos” e justificativas o brasileiro é capaz de encontrar para não abrir mão dos prazeres, nem sempre saudáveis, da sua mesa tradicional.

PONTO PARA REFLEXÃO: você come alimentos pensando mais em seus nutrientes ou apenas nos seu sabor?

O ASPECTO PSICOLÓGICO

O comer tem ligação intrínseca e direta com o funcionamento emocional do indivíduo.

A comida está intimamente ligada, desde o nascimento, às experiências emocionais. Torna-se difícil, no ato de comer, separar o lado fisiológico do psicológico.

“A forma com que os adultos ensinam as crianças a comer, por exemplo, desempenha importante papel na produção e reprodução de certa moral em relação aos alimentos (Mead, 1980).”

James (1990) lembra que as crianças são recompensadas por comer o que faz bem, como carnes e vegetais, por meio do que faz mal, como doces e guloseimas. A “comida do mal” – guloseimas – não será dada, se a “comida do bem” não for ingerida. Ironicamente, essas práticas nos dizem que os alimentos que não são bons para saúde são os mais prazerosos.

Uma outra situação que pode reforçar o mal exemplo ou rebeldia pela boa alimentação é a proibição alimentar das crianças junto com a prática dos adultos para tentar alcançar o físico desejado.

Isto mostra para as crianças que em algum momento houve um desvio em sua vida e portanto a criança deve obedecer ao ditado “faça o que eu falo e não faça o que eu faço.”

Segundo os autores, os adultos, em geral, possuem licença para comer o que quiserem  e como quiserem.

“A decisão sobre os alimentos seria mais uma forma que os pais possuiriam de exercer poder, embora os filhos sempre encontrassem formas de resistir a essas regras quando comessem fora de casa ou quando comessem barras de chocolate em seus quartos.”

Quando se procura entender o papel desempenhado pelos alimentos na vida das pessoas, percebe-se que ele é não apenas uma fonte de nutrientes para a sobrevivência . O alimento é também uma fonte de gratificações emocionais e um meio de expressar nossos valores e relações sociais.

Podemos perceber isso ao tentarmos seguir uma determinada dieta enquanto estando junto com alguém. Ao recusarmos algo que ele possa nos oferecer como refeição, estando em sua casa por exemplo, pode ser desagradável. Em algumas culturas recusar o que se oferece para comer chega a soar como ofensa.

De acordo com Ackerman (1992), a comida é grande fonte de prazer, um mundo complexo de satisfação, tanto fisiológica, quanto emocional, que guarda grande parte das lembranças da nossa infância.

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Sabemos escolher o que comemos?

Nem sempre a quantidade de comida que comemos é a quantidade que precisamos comer. Muitas vezes excedemos nesta quantidade e os principais fatores influentes são psicológicos.

“A falta de conhecimento quanto à origem das preferências, gostos e atitude das pessoas em relação aos alimentos se deve ao fato da psicologia ter-se preocupado em entender o que determina as quantidades de alimentos que se come e não o que se come ou como seleciona-se o que se come.”

Aceitar ou rejeitar um alimento deveria estar diretamente ligada a uma tomada de ação consciente, livre das emoções.

Parece haver uma concordância entre pesquisadores de que é muito difícil separar as dimensões sociais e culturais da escolha de um alimento das dimensões psicológicas ou mesmo biológicas.

A psicologia da escolha do alimento

Para conhecer as bases motivacionais que levam as pessoas a aceitarem ou não determinados alimentos é preciso diferenciar três termos:

O USO de um alimento que se relaciona a “o que” ou “quanto” é consumido

A PREFERÊNCIA que se refere à situação de escolha

O GOSTO

Interessante o que encontramos neste estudo ao que diz sobre a relação desses 3 fatores:

“Exemplificando, o consumidor pode preferir carne mas comer mais pão por razões como preço e praticidade no preparo.

Gosto, o terceiro termo, relaciona-se a uma resposta afetiva sendo um determinante da preferência, ou seja, pode se preferir comer verduras e gostar mais de doces.

Se o ambiente no qual vivem os consumidores fosse calmo e não passasse por muitas mudanças, poderíamos imaginar que comemos o que preferimos e preferimos o que gostamos.

No entanto, sabe-se que a disponibilidade dos alimentos, o preço, a conveniência e vários outros fatores culturais e sociais modificam essa suposição.”

Em um estudo de 1982 podemos constatar a importância da associação do alimento com a saúde como um importante aspecto para o USO e PREFERÊNCIA e a pouca relação do aspecto saúde com GOSTO.

A ciência da nutrição tem um intenso fluxo de informações pois engloba a biologia, a microbiologia, a bioquímica e a biofisiologia.

Os nutricionistas, no entanto, enquanto procuravam entender determinados padrões de comportamento começaram a se aproximar das ciências sociais. O objetivo é entender porque as pessoas, mesmo conhecendo as regras, não as colocam na prática de suas dietas alimentares.

Por isso a antropologia, sociologia e psicologia, desenvolveram maior interesse em relação à questão da nutrição.

O homem é simbolicamente e literalmente, o que come pois a sua energia e a manutenção do seu sistema bioquímico dependem do alimento. (Lévi-Strauss)

ESTÁGIOS DO DESENVOLVIMENTO DO ESTUDO DA NUTRIÇÃO

  • no século vinte, quando as vitaminas foram identificadas e ligadas à prevenção de algumas condições particulares. Os consumidores estavam ansiosos para consumir os chamados “alimentos protetores”, ricos em vitaminas como o leite, ovos e vegetais.
  • o segundo estágio, depois da Segunda Guerra Mundial, caracterizou-se pela ênfase dada aos novos processos de produção de alimentos
  • e o terceiro, que se iniciou na década de 70, tem sido marcado pela relação existente entre o alimento e o físico saudável

O progresso econômico permitiu aos que vivem nas modernas sociedades ocidentais experimentar um estilo de vida caracterizado por elevado consumo de alimentos e por uma inatividade física, ou seja, um estilo de vida que contrasta desfavoravelmente com a sociedade humana no seu estado mais “natural”.

O estilo de vida nutricionalmente desfavorável à vida como um todo nos faz ampliar o interesse pelo conhecimento e desenvolvimento das ciências nutricionais.

E quais as consequências do aumento do interesse por esses estudos?

  • mais espaços dedicados a assuntos relacionados à dieta e emagrecimento
  • aumento dos anúncios de alimentos em revistas femininas, cujo apelo maior tem sido a dieta e não o ato de comer
  • a constatação de que a maioria das mulheres não está satisfeita com seus corpos, evitando comer ou sentindo-se culpadas por comer
  • proliferação de novos jornaIs relacionados ao tema (Ecology of Food and Nutrition, Journal of Nutrition Education, Cadernos de Debate, Vol. VI, 1998 6 The British Journal of Nutrition, Ernahrungsforschung, Cahiers de nutrition et de diététique, …)

As pesquisas, no entanto, revelam uma ampla escala de problemas com alimentação nas sociedades modernas, particularmente relacionados aos padrões nutricionais como, por exemplo, os males causados pela ingestão de muita gordura ou pela falta de fibras na dieta alimentar.

Além do mais devemos observar que as informações sobre os benefícios e perigos de muitos alimentos têm variado muito. Como é o caso do ovo, da batata, do café que vira e mexe vão para a berlinda ou recebem louros.

O que é dito ou escrito, para alertar as pessoas sobre as questões relativas aos alimentos consumidos e a sua relação com a saúde, já parece levar a alto grau de ceticismo com relação ao valor das informações.

 

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OS PAIS E A SUA INFLUÊNCIA NA CRIAÇÃO DE UMA CULTURA ALIMENTAR

  • mães donas de casa: possuem mais tempo para se dedicar a uma alimentação familiar com mais qualidade
  • a renda dos pais: influencia diretamente na qualidade dos alimentos comprados
  • mães que trabalham fora: menos tempo disponível para a educação alimentar da família
  • hábitos alimentares dos pais: influenciam diretamente como exemplo para os filhos

Tanto as informações que as pessoas recebem sobre alimentos quanto a prática alimentar do cotidiano revelam muito sobre o indivíduo e a coletividade. O que devemos fazer é pensar sobre os vários aspectos que possam influenciar nossa alimentação positivamente.

O bom alimento é aquele que contém nutrientes necessários a minha saúde, não deixam toxinas no corpo, tem paladar agradável, encontrados por um bom preço e reconhecido culturalmente como um alimento.

E a melhor maneira de mudarmos nossa consciência para uma alimentação mais saudável parece estar nas mãos dos adultos. Estes devem servir de exemplo aos mais jovens, além de resguardar um envelhecimento mais saudável. Assim serão capazes de mudar a visão social quanto à possibilidade de podermos envelhecer com mais saúde.

Pesquisa de referência:Consumo de alimentos e nutrição: dificuldades práticas e teóricas
Cadernos de Debate, Vol. VI, 1998 1 Artigo publicado no Vol. VI/ 1998 da Revista Cadernos de Debate, 
uma publicação do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação da UNICAMP

Equipe A Terceira Idade

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1 comentário
  1. wilber sarmento Diz

    Muito bom este e outros texto que li neste site. Parabéns.

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