Diverticulite: Tem Cura? Sintomas, Remédios, Tratamento

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A diverticulite é uma inflamação dos divertículos, pequenas bolsas ou orifícios presentes na parede do cólon do intestino grosso. A diverticulite é muito frequente em pessoas obesos, sedentárias, tabagistas e maiores de 60 anos. Sendo 35 vezes mais comum em países ocidentais de dietas gordurosas e pobres em fibras, do que em regiões rurais.

Cerca de 95% dos divertículos encontram-se no cólon sigmóide, parte final do intestino grosso que se distribui pelo abdômen formando uma espécie de U invertido. No entanto, muitas pessoas têm divertículos no cólon sem apresentar nenhum tipo de queixa ou sintoma. Porém, quando infectados, os divertículos podem levar a um quadro infeccioso conhecido por diverticulite, que costuma apresentar febre, dor abdominal e alterações do trânsito intestinal.

Neste artigo vamos explicar como funciona o intestino grosso, o que é um divertículo e o que leva à diverticulite, seus sintomas e tratamentos possíveis. Veja abaixo.

Entenda o intestino grosso

diverticulite: esquema do intestino grosso no organismo
Diverticulite: o intestino grosso é responsável por eliminar as fezes, entre outras coisas.

O intestino grosso é o órgão responsável pela absorção de água, armazenamento e eliminação dos resíduos da digestão. Ele começa no íleo, a porção final do intestino delgado, é formado por diferentes camadas de tecido e é dividido em quatro segmentos:

  • ceco de configuração semelhante ao fundo cego de um saco onde se localiza o apêndice vermiforme;
  • cólon ascendente que sobe até o fígado e forma um ângulo à direita chamado flexura hepática;
  • cólon transverso que localiza-se na parte superior do abdômen e desce na altura do baço;
  • cólon descendente que desemboca no cólon sigmoide, reto e canal anal.

Sua superfície externa contém uma camada translúcida, bem fininha, chamada serosa. A outra, é a camada muscular formada por músculos lisos que comprimem e empurram o bolo alimentar para expulsá-lo através do ânus. Já a camada mais interna é constituída por uma mucosa cheia de glândulas e preparada para produzir muco, enzimas e anticorpos que vão defender esse órgão de substâncias estranhas e agentes agressores.

Essa mucosa é irrigada por vasos sanguíneos existentes na camada serosa que atravessam a camada muscular, criando um ponto de fragilidade no músculo. Às vezes, pequenas quantidades de fezes (fecalito) podem penetrar neste local e ficar retidas. Além disso, sob condições favoráveis, bactérias também podem assentar-se no local.

O que é um divertículo

diverticulite: esquema mostrando divertículos inflamados
Diverticulite ocorre quando os divertículos são inflamados.

Um divertículo é uma pequena bolsa ou saculações que se formam na parede do intestino grosso (cólon descendente e sigmóide), na porção final do intestino. Divertículos se formam no decorrer da vida, devido principalmente a pressão exercida pelo conteúdo intestinal contra esta parede.

Divertículos se assemelham a um dedo de luva invertido, com 0,5 a 1 cm, e costumam surgir nas regiões da musculatura do cólon onde há vasos sanguíneos. Os divertículos surgem por uma fraqueza na parede do cólon associado a anos de aumento da pressão dentro do intestino. Na presença de uma grande quantidade deles no intestino grosso, dizemos ser uma diverticulose.

Todo paciente que apresenta pelo menos um divertículo identificado em exame diagnóstico, seja radiológico ou endoscópico, é um portador de doença diverticular, ou seja, a diverticulose.

Diverticulite: O que é?

Quando há a obstrução de algum divertículo por fezes ou alimentos não digeridos adequadamente, inicia-se um processo inflamatório, que em seguida evolui para um processo infeccioso denominado diverticulite. Ou seja, a diverticulite ocorre quando os divertículos inflamam, podendo apresentar abscesso ou perfuração em casos mais graves.

Causas da diverticulite

Atualmente, a principal causa para a diverticulite é a obstrução do divertículo por pequenos pedaços de fezes, que favorecem a proliferação de bactérias dentro mesmo. A alimentação pobre em fibras leva à constipação intestinal. Esta contribui para formação de fezes de pequeno volume e não moldadas, aumentando o trabalho do cólon para empurrá-las em direção ao reto e ânus.

As fibras ajudam a criar volume fecal maior e as contrações do cólon têm anteparo. Quando a alimentação não apresenta fibras, como em dietas à base de carboidratos refinados e proteínas, por exemplo, a pressão dentro do intestino aumenta e facilita a formação dessas hérnias ou inflamações diverticulares.

O envelhecimento também favorece o enfraquecimento da musculatura do intestino, deixando-o ainda mais vulnerável. Com o passar dos anos, a musculatura lisa do cólon vai perdendo a elasticidade facilitando o aparecimentos de pequenas hérnias ou divertículos.

Em geral, eles aparecem após os 50 anos. Aproximadamente 30% das pessoas acima de 60 anos e 85% das pessoas acima de 80 anos possuem divertículos. Em pessoas abaixo dos 40 anos, a doença costuma ser rara.

Evidentemente, fatores genéticos também devem ser considerados. Há estudos de genes que podem determinar alterações nas fibras da musculatura responsáveis pelo processo de contração intestinal e aparecimento de divertículos. A diverticulite também pode ter como causa uma perfuração induzida por alguma droga ou por agressão ao cólon.

Vários outros fatores de risco podem aumentar as chances de desenvolver a diverticulite, são eles:

  • Obesidade;
  • Fumar;
  • Falta de exercício
  • Dieta rica em gordura animal e pobre em fibras;
  • Medicamentos como esteróides, opiáceos e anti-inflamatórios não-esteroides (AINEs). A diverticulite incide mais em pacientes que tomam medicamentos oncológicas, imunodeprimidos e diabéticos.

Sinais e sintomas

mulher com dores abdominais causadas por diverticulite
Diverticulite caracteriza-se pela dor abdominal aguda.

A maioria dos pacientes com diverticulose não apresentam nenhum sintoma. Muitas vezes, sequer sabem que possuem a doença diverticular. No entanto, quando a doença é sintomática, o seu quadro clínico se caracteriza por dor infraumbilical, isto é, abaixo do umbigo. No início, além da dor, podem ocorrer ardor, dificuldade para urinar e diarreia branda, raramente com sinais de sangue.

Depois, essa dor se desloca para a fossa ilíaca esquerda, situada no quadrante inferior esquerdo do abdômen, por isso é muitas vezes chamada de “apendicite do lado esquerdo”. No entanto, apesar dos sintomas serem muito parecidos, a diverticulite no lado direito do intestino é menos comum.

O que ocorre é que nos casos de cólon redundante, embora seja provocada por diverticulite no cólon sigmóide, a dor caminha um pouco para a direita do abdômen e pode simular uma crise de apendicite aguda, exigindo um diagnóstico diferencial.

Outros sintomas podem ser mal estar, alteração do ritmo intestinal (diarreia ou prisão de ventre), náuseas, vômitos e febre. Casos mais severos pode levar a obstrução intestinal ou até mesmo a perfuração do divertículo.

Durante o exame de palpação, a dor pode aumentar quando se retira a mão bruscamente depois de pressionar o abdômen. Essa dor pode ser sinal de irritação do peritônio, membrana que reveste internamente a cavidade abdominal.

Curiosidades

Há uma hipótese provável de que fatores dietéticos expliquem a frequência maior dessa doença no mundo ocidental. Quando se manifesta no Oriente, ela acomete mais o cólon ascendente que se situa no lado direito do abdômen. Já no Ocidente, o cólon descendente e o sigmóide são os mais afetados (lado esquerdo).

Em 1971, um médico inglês famoso pela descoberta do linfoma de Burkitt estudou os bantus, povo africano que praticamente desconhece a doença. Foi a primeira vez que levantou-se a possibilidade da diverticulose ser provocada pela falta de fibra na alimentação.

Assim, sugere-se que os hábitos alimentares dos dois grupos interferem no aparecimento da doença. Na população japonesa, por exemplo, apenas 18% dos japoneses que vivem no Japão apresentam a doença. No entanto, esse número sobe para 50% entre os japoneses que se mudaram para o Havaí e adotaram hábitos alimentares ocidentais.

       

Além disso, a pressão intercolônica, isto é, a pressão dentro do lume do cólon é maior nos pacientes com diverticulose do tipo ocidental e praticamente normal naqueles com diverticulose do tipo oriental.

Complicações mais sérias

Uma complicação bastante frequente é a hemorragia intestinal provocada por um divertículo sangrando. Pois, muitos divertículos se formam em áreas onde passam vasos sanguíneos, favorecendo a lesão destes e o surgimento de sangramento no intestino. A manifestação se dá pela presença de sangue nas fezes. Cerca de 25% dos pacientes com diverticulite aguda desenvolvem complicações como:

  • Abscessos dentro do divertículo, quando pus se acumula nos divertículos, um quadro de difícil tratamento e que eleva o risco de rotura do divertículo;
  • Obstrução do cólon ou intestino delgado causada por cicatrizes (fibroses);
  • Perfuração dos divertículos que conectam seções do intestino, cólon ou bexiga (fístulas). Por exemplo, se a diverticulite ocorre em uma área do intestino próxima à bexiga, a inflamação faz com que essas duas áreas se grudem, criando um orifício entre elas (fístula) fazendo com que urina entre em contato com o intestino e fezes com a bexiga;
  • Peritonite, quando ocorre ruptura dos divertículos inflamados, derramando o conteúdo intestinal em sua cavidade abdominal, levando ao contato do conteúdo intestinal (fezes) com a cavidade peritoneal.

Incidência da diverticulite

Como a doença diverticular costuma ocorrer a partir dos 50 anos, sendo que aos 85 anos, 85% das pessoas formaram divertículos, pode-se dizer que a diverticulite se trata de uma doença que faz parte do envelhecimento normal do organismo.

O que podemos afirmar é que os divertículos fazem parte da evolução natural da saúde, uma vez que somente 20% das pessoas se tornam sintomáticos. No entanto, como a dieta é uma das principais causas, talvez seria possível modificar o processo do cólon, ou seja, alterar sua fisiopatologia por meio da mudança dos hábitos alimentares.

No entanto, é necessário identificar se esta associação é realmente verdadeira. Para tanto, seria necessário estudar duas comunidades diferentes com relação ao tipo de alimentação. Uma delas receberia, desde a infância, alimentos ricos em fibra e a outra manteria os hábitos conservadores de seu grupo social.

Só assim seria possível concluir que a introdução de fibra na dieta humana é realmente tão benéfica quanto se acredita, pois facilita uma série de processos no intestino. E desse modo, confirmar se a sua ingestão sistemática iria mudar a história natural da doença diverticular.

Diagnóstico da diverticulite

Quando há suspeitas de uma diverticulite em curso, o melhor exame diagnóstico é a tomografia computadorizada (TC) do abdômen (98% de sensibilidade). Pois, a colonoscopia costuma ser feita apenas após uma melhora no quadro de inflamação para posterior avaliação e quantificação dos divertículos.

Isso porque, durante a fase aguda da diverticulite, há a possibilidade de piorar a diverticulite e facilitar perfurações das áreas inflamadas através de procedimentos endoscópicos. A TC também é útil para verificar complicações.

A tomografia também é capaz de diagnosticar não só a diverticulite como também abscessos e fístulas, caso estejam presentes. A ultrassonografia ou raio X abdominal pode também ser usada como primeiro exame, antes da TC, pela facilidade e comodidade do procedimento.

Divertículos assintomáticos costumam ser descobertos em exames radiológicos ou endoscópicos, por acaso. Na maioria dos casos eles são identificados em colonoscopias realizadas para rastreio do câncer de cólon.

A colonoscopia é feita para examinar a superfície interna do cólon. Para tanto, introduz-se um tubo com fibra ótica pelo ânus que vai fotografando as regiões por onde passa, permitindo observar orifícios ou pequenas evaginações da mucosa. Ela registra também a ocorrência de processos inflamatórios.

Tratamento da diverticulite

cirurgia de diverticulite
Diverticulite: a cirurgia é necessária em casos mais graves que não respondem ao tratamento clínico.

Pacientes com diverticulose sem sintomas não precisam de nenhum tratamento. Indica-se apenas alterações na dieta com a ingestão de mais fibras a fim de aumentar o volume das fezes, diminuindo assim, o risco de obstrução dos divertículos e prevenindo a formação de novas lesões.

Uma diverticulite leve pode ser tratada em casa com antibióticos e dieta restrita a líquidos, observando-se a evolução do quadro por 72 horas. Geralmente, 80% desses casos são curados. No entanto, é obrigatório fazer a colonoscopia após algumas semanas para ter certeza. Normalmente, a colostomia é mantida por alguns meses para deixar o intestino cicatrizar. Pois, os sintomas podem simular doenças como o tumor de cólon, a doença de Crohn ou mesmo doença da bexiga ou de outros órgãos anexos ao intestino.

Em casos mais graves com febre alta, intensa dor abdominal e incapacidade de ingerir alimentos, a hospitalização e o uso de antibióticos por via venosa faz-se necessário. Quando não há resposta ao tratamento clínico ou quando surgem complicações como perfuração e peritonite, indica-se cirurgia para lavagem do peritônio e remoção da área doente do cólon.

Os casos mais brandos podem ser tratados das seguintes formas:

  • Repouso com bolsa de água fria no local dolorido para diminuir a inflamação;
  • Tomar apenas líquidos por um ou dois dias, para dar tempo do intestino regenerar;
  • Antibióticos, quando há infecção bacteriana;
  • Analgésicos, como paracetamol;
  • Com a melhora, aumentar a quantidade de fibras e reduzir carnes gordas na dieta para evitar novos divertículos.

Tratamento Cirúrgico

Complicações como peritonite, abscesso ou fístula, podem requerer cirurgia geral (laparotomia), seja de forma imediata ou eletiva, dependendo do estágio da doença, a idade do paciente e sua condição médica geral, bem como a gravidade e freqüência dos sintomas após um primeiro episódio de abdômen agudo.

Na maioria dos casos, a decisão de realizar cirurgia eletiva é tomada quando os riscos da cirurgia são menores do que os resultantes das complicações da condição. A cirurgia eletiva pode ser realizada até seis semanas após a recuperação da diverticulite aguda.

Já a cirurgia de emergência (imediata) é necessária em caso de ruptura intestinal, pois sempre resulta em infecção da cavidade abdominal (peritonite). Durante essa cirurgia, o divertículo rompido é removido e uma colostomia ou ileostomia é realizada.

Como é feita a cirurgia de emergência

cirurgia de diverticulite
Diverticulite: em alguns casos a cirurgia imediata é necessária devido ao risco de contaminação.

Alguns anos atrás, a cirurgia era feita de uma vez só, com a retirava do segmento comprometido e uma anastomose, ou seja, a ligadura das duas extremidades do cólon. Ou, em três tempos, quando as condições do paciente estavam deterioradas e nos casos de septicemia, por exemplo.

Num primeiro momento, fazia-se uma colostomia, ou seja, exteriorizava-se a parte mais proximal do cólon através da parede do abdômen e deixava-se o segmento comprometido pelos divertículos e abscessos para ser retirado numa segunda etapa do processo. Só mais tarde eram unidas as duas extremidades do cólon para recompor fisiologia normal. No entanto, esse método cirúrgico provocava várias complicações e era causa expressiva de mortalidade. Assim, a cirurgia passou a ser feita em dois tempos.

Na primeira intervenção, faz-se a ressecção e anastomose, ou seja, retira-se o segmento comprometido do cólon e faz-se a colostomia parcial, realizado em pacientes com um intestino bem vascularizado, não edematoso e sem tensão.

Isso significa que o cirurgião deixará uma abertura entre o intestino e o exterior, conectada a uma bolsa de coleta da matéria fecal. A colostomia é fechada em cerca de 10 ou 12 semanas em uma cirurgia subsequente em que as extremidades cortadas do intestino são reconectadas novamente.

Num segundo momento, liga-se a borda proximal do cólon com a borda distal, próxima ao reto, uma técnica conhecida como cirurgia de Hartman. Esse procedimento pode ser feito com incisão medial, transversa ou com laparoscopia minimamente invasiva.

Embora a anastomose inicial possa ser feita na maioria dos casos, há o risco de ruptura dos pontos, o que provoca a abertura de um orifício por onde as fezes escapam e surgem complicações como a peritonite. Num paciente em más condições de nutrição ou imunossuprimido, isso é de extrema gravidade.

Se não regredir, o paciente deve ser encaminhado para intervenção cirúrgica ou para drenagem do abscesso, através de punção transcutânea. Em caso de abscessos pequenos, esse método ajuda a combater o processo de infecção que poderia generalizar-se

       

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