Cuidar do idoso em casa adoece quem cuida?

uma pesquisa com conclusões importantes para a saúde social

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FATORES QUE CONTRIBUEM PARA O ADOECIMENTO DO
CUIDADOR FAMILIAR DE IDOSO

Vivenciamos um período de transformação social onde a população idosa aumenta cada vez mais. Porém o envelhecimento com limitações também aumenta, como resultado de inúmeras doenças crônicas. Tal fato contribui para o crescimento do número de indivíduos com incapacidades funcionais exigindo apoio a médio e longo prazo, nos níveis familiar, social e de saúde. O número de famílias que cuidam de idosos (cuidador familiar), também cresce.

Desta forma, “como que da noite para o dia”, a família praticamente se vê obrigada a reestruturar-se, a fim de prestar assistência ao seu ente.

Assim, se entregam às tarefas do cuidar sem um planejamento pessoal, social e financeiro para isso. 

A experiência de assumir a responsabilidade por idosos dependentes tem sido colocada pelos cuidadores familiares como uma tarefa exaustiva e estressante.

O envolvimento afetivo e a transformação da relação anterior (de reciprocidade) para uma relação de dependência, em que o cuidador, ao desempenhar atividades relacionadas ao bem-estar do idoso, passa a ter restrições em relação à sua própria vida. 

O cuidador familiar é um grande candidato para um envelhecimento também doentio.

De acordo com Fuhrmanna  quanto maior o déficit cognitivo do idoso, maior a sobrecarga do cuidador.

Wachholz, em 2013, observou fatores como tempo e domínio psicológico de quem cuida interferindo significativamente na qualidade de vida do cuidador.

Outros estudiosos citam não somente a sobrecarga física mas a emocional, social e financeira como as mais difíceis para o cuidador. Mas também expõem que o “mistério do amor” facilita muito o lidar com o idoso dependente, podendo ser fator importante para aliviar a sobrecarga do cuidador familiar.

Com o aumento de idosos dependentes cada vez mais crescente observamos muitas famílias vivenciando dificuldades quanto às mudanças necessárias para a oferta de cuidados aos mesmos.

Privações sociais, interrupção das atividades de trabalho, sobrecargas física e emocional são alguns dos aspectos relatados que interferem negativamente na qualidade de vida do cuidador familiar.

Numa amostra significativa pesquisada por Rondini et al (2011, p 796-820) cerca de 50% dos cuidadores familiares relatam estresse, cerca de 30% dizem ter saúde afetada por causa da função do cuidar e cerca de 50% dizem não ter tempo para si.

De acordo com Anjos et al (p 2014, 600-8) a atividade de ser um cuidador familiar chega a ser desgastante “com fatores de risco à saúde desse cuidador, principalmente, devido à possibilidade de sobrecarga de atividades cotidianas referentes ao cuidar”.

Este trabalho, cujo objetivo principal é identificar fatores que geram impacto social ocasionadas pela sobrecarga do cuidador familiar de idosos, também considera importante promover reflexões acerca de ações tanto política quanto sociais para a redução do impacto do adoecimento do cuidador familiar, além de fomentar a elaboração de suporte técnico que facilitam a tarefa do cuidar

Para alcançar tais objetivos fez-se necessário: contextualizar o envelhecimento com limitações, caracterizar o papel e o perfil do cuidador familiar de idoso, identificar os fatores de sobrecarga do cuidador familiar, identificar o impacto da sobrecarga (na família, na saúde, no campo profissional e pessoal do cuidador familiar), identificar demandas para alívio da sobrecarga na tarefa do cuidar e caracterizar o impacto social devido sobrecarga do cuidador familiar de idosos.

Uma reflexão preocupante:

A preocupação desse estudo está em apontar uma alta possibilidade de haver, num futuro muito próximo, juntamente com o alto índice de envelhecimento associado à condições limitantes atual, uma grande chance das próximas gerações continuarem mantendo um envelhecimento também doentio e limitante.

É contraditório alguém que cuida de outra pessoa com limitações ou doente, não ser cuidada e adoecer.

É justamente isso que parece acontecer numa maioria expressiva dos cuidadores familiares.

ENVELHECIMENTO E CUIDADOR FAMILIAR DE IDOSO

Para melhor compreensão da necessidade de suporte social ao envelhecimento buscamos em Moreira (2011, p 485-90) uma noção de como a sociedade lida com a questão:

No imaginário social a velhice sempre foi pensada como uma carga econômica – seja para a família, seja para a  sociedades a subtraírem dos velhos seu papel de pensar seu próprio destino. No entanto, nunca faltaram exceções a tais práticas, o que pode ser exemplificado com o reconhecimento pelas sociedades indígenas da figura do pajé ou xamã ancião ou, nas sociedades ocidentais, dos poderosos, ricos e famosos quando gozam de saúde física, mental e econômica.

As exceções, porém, não podem esconder as grandes dificuldades socioeconômicas que os idosos, particularmente os pobres, sofrem nos mais diferentes contextos de vida. Por isso mesmo, a velhice é por eles auto-assumida como ‘problema’, na mesma medida em que sofrem por causa dela e o imaginário social assim a define.

Nos últimos anos, cerca de um milhão de pessoas cruzaram a barreira dos 60 anos, a cada mês e em todo o mundo, provocando mudanças importantes na estrutura etária das populações em praticamente todos os países. 

Com o processo de envelhecimento, ocorrem alterações funcionais que, embora variem diferentemente de um indivíduo para outro, são encontradas em todos os idosos e são próprias de um processo biológico, acarretando, muitas vezes, o surgimento de condições crônicas de saúde e suas possíveis sequelas debilitantes.

Assim, também é de se esperar que aumente o número de idosos dependentes inseridos nos meios social e familiar.

Cada dia mais, torna-se mais provável que, no curso de vida, cada um de nós precise cuidar de uma pessoa idosa durante um período de tempo prolongado.

No entanto, mesmo cuidando de alguém que se ama, uma mudança no estilo de vida e uma rotina de trabalho constante podem acarretar aumento no nível de estresse e diminuição na qualidade de vida do cuidador.

Encontramos em Rocha, Vieira & Sena (2008, p 801-8) que as limitações ou dependência pode ser considerada em três níveis: a dependência estruturada, resultado de um contexto cultural quanto ao que se espera do ser humano; a dependência física decorrente da incapacidade funcional, e a dependência comportamental, relacionada a julgamentos e ações humanas.

No caso da pessoa idosa, a dependência ocorre quando esta se torna incapaz de assumir suas atividades de autocuidado e gerenciar sua rotina.

Sendo assim, um familiar assume a função de oferecer suporte e apoio, de forma esporádica ou permanente. Em grande parte dos casos, os cuidados são assumidos pela família. Sendo assim, a necessidade de recorrer a serviços especializados, como por exemplo, assistência social e saúde torna-se importante.

Sistema Público de Saúde do Brasil, entretanto, ainda não fornece o suporte adequado ao idoso que adoece nem à família que dele cuida.

Desta forma, o acelerado crescimento da população idosa no Brasil faz surgir um grande desafio: como garantir uma sobrevivência digna a todos aqueles que tiveram suas vidas prolongadas em anos?

Moreira (2011, p 433-40) comenta que “a busca de soluções adequadas exige a inclusão do envelhecimento da população brasileira como um elemento fundamental na elaboração das novas políticas e na agenda de investigações científicas do novo milênio.”

Diante desse cenário o cuidador familiar é um elemento de extrema importância para ajudar o idoso dependente assegurar seu direito à qualidade de vida e, portanto, merece atenção para que também tenha seus direitos e saúde assegurados.

Cuidador familiar de idoso: o seu papel e o seu perfil na sociedade brasileira

Ainda de acordo com Moreira (2011, 433-p 40), observa-se em todos os países do mundo que o cuidado dos idosos acaba sendo realizado por meios informais: predominantemente a família, mas também amigos, vizinhos e membros da comunidade. Geralmente, é uma atividade prestada de forma voluntária, sem remuneração.

[…] Nesse contexto, surge a figura do cuidador familiar, que é a pessoa com algum grau de parentesco com o idoso, sem formação específica para exercer essa atividade. Diz-se tratar de alguém da família ou afim, sem formação na área da saúde, que está cuidando de um ente familiar.

Para Oliveira & D´elbouxll (2012, p 829-38):

[…] Os cuidadores familiares são aqueles que atendem às necessidades de autocuidado de indivíduos com algum grau de dependência, por períodos prolongados, frequentemente até a morte do idoso. É ele quem assume a responsabilidade de dar suporte ou de assistir às necessidades do indivíduo, garantindo desde cuidados básicos, como alimentação e higiene, e outras atividades como ir ao supermercado e realizar tarefas financeiras.

Na maioria das vezes o cuidado é realizado por mulheres, filhas ou esposas, que residem com o idoso e cuidam em tempo integral do seu familiar idoso, sendo esta quase sempre uma atividade solitária, realizada sem revezamento com outros familiares.

O QUE SIGNIFICA E QUEM É O CUIDADOR FAMILIAR

O cuidador familiar, geralmente, reside na mesma casa e presta ajuda necessária às atividades diárias do idoso. Geralmente, a função de cuidador é assumida por uma única pessoa, denominada cuidador principal.

O papel do cuidador principal ser exercido por uma mulher na maioria das vezes, é considerado uma “tradição cultural” na visão de Rondini (2011, p 796-820), sendo este indivíduo sendo encontrado já sobrecarregado por outras tarefas.

Os cuidadores secundários são os familiares, voluntários e profissionais, que realizam atividades complementares. Usa-se a denominação ‘cuidador formal’ (principal ou secundário) para o profissional contratado (auxiliar de enfermagem, acompanhante, empregada doméstica etc.) e ‘cuidador informal’ para os familiares, amigos e voluntários da comunidade. 

O cuidador familiar brasileiro assemelha-se ao perfil dos cuidadores de outros países, especialmente no tocante às suas características sociodemográficas.

Como já mencionado, a responsabilidade principal dos cuidados de alguém recai sobre um único familiar, cuja designação, embora seja informal, geralmente, obedece a quatro fatores relacionados ao parentesco: ser cônjuge, ser do gênero feminino, já viver com o paciente e ter relação afetiva, principalmente conjugal e de filhos.

Considerando isso, observa-se que os cuidados são executados pelos cônjuges e filhos, especificamente as filhas, na faixa etária de 45 a 50 anos, solteiras, casadas ou viúvas e, no geral, aposentadas.

O conhecimento do perfil dos cuidadores e de suas dificuldades no processo de cuidar permite, aos governantes e aos profissionais da saúde, planejar e implantar políticas e programas públicos de suporte social à família, voltados à realidade do cuidador. Isso porque o cuidador está em condições de sobrecarga de trabalho, o que contribui para o adoecer e para o desenvolvimento de situações de conflito entre o cuidador e o idoso dependente. (ROCHA, VIEIRA & SENA, 2008)

A importância do papel da mulher no contexto social do cuidar do idoso

O cuidar do idoso trata-se de uma tarefa majoritariamente exercida por mulheres/esposas/irmãs. Cuidar de outrem, ainda mais quando o outro é um familiar e a tarefa é realizada no ambiente doméstico, transforma-se num acontecimento bastante complexo, sujeito a muitas variáveis intervenientes.

Esse aspecto, ainda, está presente culturalmente não só na sociedade brasileira, pois apesar das mudanças sociais ocorridas, da maior participação da mulher no mercado de trabalho e das transformações dos papéis e valores da família, a mulher ainda é a principal responsável pelo cuidado, compreendido, muitas vezes, como uma extensão das atividades domésticas.

Neste contexto o cuidado informal acaba sendo praticado fundamentalmente à custa do tempo e do trabalho das mulheres, sendo elas de fundamental importância para manutenção do cuidado domiciliar, assumindo o cuidado não só por amor e compromisso, mas também por obrigação, imposta pelos laços morais e de parentesco.

Outro perfil que cada vez mais surge é o cuidador familiar já em idade avançada. Perante a indisponibilidade dos filhos adultos, ou melhor, das filhas e noras, para cuidarem dos idosos dependentes, os cônjuges assumem-se, frequentemente, como principais responsáveis pela gestão destas tarefas.

Aguiar (2011, p 485-90) cita um estudo envolvendo 13 senescentes, mulheres, com média de idade de 76,8 anos, mostrou que, entre os motivos que as levaram se tornar cuidadoras, estavam: o conformismo/resignação, o medo da perda, o compromisso, a compaixão, a imposição familiar e do ser cuidado, além da questão de gênero.

Tais representações sociais apontam aspectos subjetivos da mulher idosa cuidadora do senil dependente em nível domiciliar, interpretando os diferentes motivos que as levaram a vivenciar tal papel. Nesse cenário, espera-se da cuidadora idosa uma postura passiva no momento de assumir o cuidar, sendo algo inevitável a não aceitação do trabalho.

Cuidados de higiene e conforto, alimentação, saúde e supervisão são entregues a idosos que possuem fragilidades e problemas de saúde, não tão incapacitantes quanto os dos idosos dependentes, mas que podem desencadear situações prejudiciais para estes últimos e também para os cuidadores sujeitos à elevada sobrecarga física, psicológica e social que caracteriza os cuidados a outrem.

O fator preocupante em questão reside em sendo a mulher idosa (frágil) ou a mulher inserida no mercado de trabalho as principais  responsáveis pelo cuidar, serem realidades cada vez mais comum nas sociedades atuais, o que pode influenciar na qualidade do cuidado e no tempo disponível para tal.

 

PARADOXO SOCIAL E IMPACTO SOCIAL: CUIDAR DE IDOSO ADOECE?   

O paradoxo social caracteriza-se pela contradição entre a “ação do cuidar X adoecer pela prática do cuidar”. Sendo assim, parece que caminhamos para um futuro turvo, sem perspectivas para a tão comentada e desejada “qualidade de vida”, principalmente à medida que envelhecemos.

Já o impacto torna-se visível no reflexo do “adoecimento duplo”: cuidador e idoso, o que interfere negativamente não só no orçamento público destinado à saúde, mas também na força de produção do mercado de trabalho e cooperação social. Sendo assim torna-se de extrema importância quebrar o real fato de que “cuidar de idosos adoece”.

A dificuldade do cuidar não está somente na realização das tarefas em si, mas numa subjetividade presente na dedicação necessária para satisfazer as necessidades do outro, em detrimento das suas próprias necessidades. 

Em síntese, está em ter em casa membro familiar dependente de cuidados para o atendimento de suas necessidades básicas, além de procedimentos terapêuticos para a manutenção de sua saúde. 

Esta subjetividade está presente nas mudanças de papéis familiares, no medo, no constrangimento de prestar o cuidado, pelo fato da invasão de privacidade e intimidade do indivíduo que pode ser o pai, a mãe, o sogro.

Mas com o passar do tempo, tais dificuldades se tornam insignificantes, pois podem ser substituídas por outras, como falta de recursos financeiros e materiais. 

Quando os cuidadores familiares idosos possuem retaguarda familiar, a sobrecarga e os riscos tendem a ser divididos com a restante família.

Contudo, existem cuidadores familiares idosos que não possuem esta retaguarda familiar e asseguram-se sós o apoio a um idoso dependente, estando mais expostos a todos os riscos inerentes à prestação de cuidados. (MATOS E BARBOSA, 2008)

Em relação ao cotidiano dos cuidadores […] há uma mudança de papéis dos membros da família. Se o doente é um dos pais, os filhos adultos assumem a função de decidir e assumir as responsabilidades dos pais. O filho adulto torna-se cuidador e ficará sobrecarregado com essa função, que se soma às atribuições familiares e a seu emprego. (MOREIRA, 2011)

Devido à complexidade desta função, a família, especialmente o cuidador familiar, como prestadores diretos desse cuidado devem ser preparados para esse fim. (VIEIRA & FIALHO, 2010)

 

Fatores de sobrecarga do cuidador familiar: apresentação de experiências

Desempenhar a tarefa de cuidar de um indivíduo idoso, com doença crônica por si, já é uma atividade desgastante. Quando esta é assumida apenas por um familiar, tal atividade se torna ainda mais estressante, causando frustrações e perdas sociais. 

Os cuidadores, quando relatam suas dificuldades, não se limitam a atividades específicas do cuidado, pois há muitos fatores intrínsecos e específicos nas respostas que se relacionam à dinâmica familiar e aos seus sentimentos. 

Assumir sozinho o cuidado de um familiar não é tarefa fácil, pois além dos cuidadores lidarem com uma diversidade de sentimentos, eles se veem obrigados a agregar novas atividades a sua rotina de vida. Assim, cuidar de um idoso com dependência traz sobrecarga de ordem física, emocional e social para o cuidador familiar, cuja saúde vai se deteriorando com a exposição continuada a essas condições relativas ao ato de cuidar, de onde se conclui que o cuidador familiar, principal agente de produção de cuidados e proteção, também precisa de cuidados. 

O cuidar do idoso deve ter a finalidade de contribuir para a promoção de sua saúde, colaborando com um envelhecimento saudável com menos incapacidades e melhor qualidade de vida. No entanto, o cuidado ao idoso provoca altos níveis de tensão sobre o cuidador principal, os quais podem resultar de fatores biopsicossociais, econômicos e histórico-culturais. O fato da tensão ser um fenômeno multifatorial pode promover influência negativa direta sobre a situação de cuidado em sua totalidade. (AGUIAR, 2011)

Frequentemente os familiares veem-se limitados, e os sentimentos de desespero, raiva e frustração alternam-se com os de culpa por ‘não estar fazendo o bastante’ por um parente amado. A rotina doméstica altera-se completamente.

Geralmente há uma perda da atividade social da família. Muitos amigos não entendem as mudanças ocorridas com a pessoa que torna-se demente e se afastam. O aumento da despesa também é fator preocupante para a família. 

Diante dessa situação, ainda são poucas as respostas do sistema de saúde e de outras políticas sociais, que tenham como finalidade a saúde e o bem-estar do idoso e do seu cuidador.

Essa constatação é preocupante na sociedade brasileira ao se analisar a situação da condição social, econômica e de saúde dessa parcela da população, caracterizada por ter baixo nível socioeconômico e consumidores de uma parcela desproporcional de recursos de saúde.

Constata-se nos estudos que a participação dos homens está mais relacionada à ajuda financeira e/ou ao transporte do idoso ao serviço de saúde. Mas observa-se que nas poucas vezes em que um filho, marido ou outros cuidadores homens assumem o cuidado, o empenho por parte destes é enorme, desfazendo-se o preconceito de que os homens são incapazes de cuidar tão bem quanto às mulheres. Residir com o idoso (75%) predominou no estudo, pois muitos cuidadores já moravam na mesma residência. (VIEIRA & FIALHO, 2010)

Trabalhar com situações que geram estresse também pode ser um grande desafio, visto que cada indivíduo reage de diferentes maneiras diante de um estressor comum.

Em uma pesquisa citada por Machado, Freitas & Jorge (2007, p 530-34) “os participantes mostraram grande preocupação no tocante ao aumento dos custos oriundos do tratamento de seus familiares. Destacaram os gastos com a alimentação e com a medicação como os mais significativos (…)”.

O que se observa em muitos casos é que, se não moravam na mesma residência, mudam-se para o domicílio do idoso, pois o idoso fragilizado é muito apegado ao seu ambiente e a objetos pessoais, e seu distanciamento pode gerar outros problemas de saúde, como depressão. (VIEIRA & FIALHO, 2010)

Quando os cuidadores são filhos e filhas, pode estar presente o sentimento de retribuição deles. Principalmente as mulheres, encontram a forma de retribuir ao idoso ou idosa a oportunidade de terem sido geradas e educadas. Esse sentimento de retribuição pode se confundir com o sentimento de obrigação, de acordo com a cultura familiar, que podem ser percebidos como naturais.

Os cônjuges que assumem essa função também costumam agir assim, o qual acaba sendo repassado para os filhos, quando o cônjuge já é falecido ou não pode assumir este papel

Durante a escolha do cuidador principal, são realizados rearranjos no núcleo familiar, podendo ser uma escolha sutil ou diretiva.

Por isso, sempre são considerados pontos como a história de vida, a sensação de dever para com o familiar doente, a disponibilidade pessoal, as relações de afeto, a afinidade, a construção da relação familiar com o doente e, ainda, com maior ênfase, a questão de gênero.

Ainda, de acordo com Vieira & Fialho (2010, p 161-69) “[…] O estado civil do cuidador também requer atenção. Ser casado pode ser um fator positivo e facilitador quando constitui um apoio para as atividades desenvolvidas, ou negativo quando gera sobrecarga ao cuidador pelo acúmulo de papéis. Ser solteiro também reflete uma preocupação, pois a tarefa de cuidar pode influenciar negativamente na vida pessoal do cuidador.

Facilmente observamos e compreendemos o que apontam Ferreira & Simonetti (2008, p 19-25) “que cuidar de um indivíduo doente pode levar a diversos fatores estressantes que vão desde dificuldade financeira a fatores de ordem emocional.”

O cuidador de idosos dependentes é aquele que põe a necessidade do outro em primeiro lugar e, pressionado por necessidades imediatas, esquece-se de si mesmo, porque o cuidado constante toma praticamente todo o seu tempo, as suas forças, o seu lazer e até suas emoções.

Assim, a rotina diária que determina os afazeres do cuidador exclui a sua vontade ou preferência. Abre mão de sua vida para aquele de quem está cuidando. 

Esses dados reforçam também a necessidade de uma atenção maior aos cuidadores familiares, pois as mudanças sociais e econômicas que estão transformando as estruturas familiares nas cidades brasileiras podem afetar a posição e o papel tradicional do cuidador, associadas ao fato de que a presença de uma pessoa incapacitada na família pode conduzir a mudanças estruturais, socioeconômicas e emocionais, e atingir a todos os membros da família, a qual reage utilizando estratégias de acolhimento e cuidados. 

Características que apontam o impacto social

Como observado e averiguado por alguns estudos a habilidade e o conhecimento da atividade de cuidar são construídos na prática diária, na qual a família aprende com os seus erros e acertos, sendo que a falta de preparo para o cuidado gera, uma ansiedade que é substituída por segurança a partir do momento em que consegue organizar-se. Essa situação, porém, não é estável, posto que o estresse leva uma mesma pessoa a passar por experiências ambíguas em relação ao mesmo evento.

O cuidador informal sofre, se fere, perde, se entrega e se desgasta. Ocorre a desestruturação de sua vida. Nesse sentido, o cuidar de um idoso dependente exige muito mais que tempo, mas também carinho, disponibilidade, abnegação de uma “outra vida”. (ROCHA, VIEIRA & SENA, 2008)

Rocha, Vieira & Sena (2008, p 801-8) relatam que há, ainda, outros problemas decorrentes do ato de cuidar, como o estresse secundário à atividade do cuidado, a sobrecarga provocada pelo exercício da função de cuidador e a prevalência de depressão, ocasionando alterações na qualidade de vida ou de seu bem-estar físico, psicológico e social.

A maioria dos cuidadores relatou não possuir atividade remunerada fora do domicílio, dedicando o tempo integral ao cuidado do idoso dependente e às atividades domésticas, o que provavelmente impede ou dificulta a realização de atividades extradomiciliares.

Associado a esta situação, a baixa renda familiar oferece dificuldades para a aquisição de alimentos, medicamentos, equipamentos, transporte, entre outros suprimentos necessários para a prestação de cuidados ao idoso, configurando um fator preocupante em relação à qualidade deste cuidado dispensado, porque além dos gastos com as despesas normais da família, sabe-se que a condição de dependência gera gastos que oneram ainda mais o sistema de cuidado. (VIEIRA & FIALHO, 2010)

Em muitos países a maioria dos pacientes recebem assistência em suas casas e este fato é muito importante pois impõe uma sobrecarga à família como um todo. (VALENTE et al, 2011)

Um tópico importante, mas ainda não bem explorado é a forma como os cuidadores de demência familiares percebem sua própria saúde. Poucos estudos sobre o problema estabelecem a má saúde do cuidador familiar, quando comparado com os grupos de cuidadores para pacientes não-demente.

Além disso, o pior perfil de qualidade de saúde percebida tem sido correlacionada com altos níveis de carga e burnout  em cuidadores familiares de pessoas com demência.

Por outro lado, uma percepção positiva de saúde tem sido fortemente correlacionada com condutas saudáveis, promoção do bem-estar físico e emocional, a melhoria no início de doenças e melhor longevidade. Além disso, alguns autores têm distinguido a influência de características de personalidade na percepção de saúde. 

Encontramos em Valente et al (2011, p 740) a descrição de uma interessante relação entre cuidadores e seu estado de saúde, o que podemos resumir nos seguintes quadros (Tab 1 e 2):

Tabela 1: Porcentagem de fatos ou ocorrências de doenças em cuidadores

FATOS / OCORRÊNCIAS

ENQUANTO CUIDANDO DE ALGUÉM

ÍNDICE EM %
Problema emocional 78,1
Ansiedade 56,2
Presença de problemas físicos 53,3
Dor 50,68
Irritabilidade/ impaciência 40,9
Tristeza 34,3
Tratamento psiquiátrico 33,1
Desânimo/ fadiga 32,8
Hospitalização nos últimos anos 9,5
Desejo de morrer 8,8

 

Tabela 2: Autopercepção do cuidador de seu estado de saúde

Muito boa 54,74%
Regular 34,31%
Muito mal 10,95$

 

ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO E A REALIDADE SOCIAL NO CONTEXTO DO CUIDADOR FAMILIAR DE IDOSO

A definição de qualidade de vida (QV) mais divulgada e conhecida, atualmente, é a da Organização Mundial de Saúde (OMS) que a descreve como a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações.

Em Cachioni et al (2011, p 114-22) há uma definição inclui seis domínios principais:

(1) saúde física,

(2) estado psicológico,

(3) níveis de independência,

(4) relacionamento social,

(5) características ambientais e

(6) padrão espiritual, sendo a família a principal fonte de cuidado.

 

Em se tratando de pessoas que cuidam de outras, as habilidades de adaptação psicológica para resolver problemas e lidar com as situações de estresses têm sido discutidas como forma de aumentar ou reduzir a qualidade de vida dessas pessoas.

Os fatores estressores e o desenvolvimento de habilidades

Como descrito em Ferraresi et al (2014, p 525-39) os comprometimentos do idoso e as mudanças ocorridas na vida do cuidador dão origem a um conjunto de estressores que exercem pressões específicas sobre a vida do cuidador.

Este pode avaliar a situação como suportável e administrável, ou não.

O modo de enfrentar uma situação de estresse é em parte determinada pela sua história passada, seus valores, suas crenças pessoais, pela sua avaliação da situação e pelos recursos pessoais e sociais disponíveis para lidar com o evento estressante. 

Também observa-se que o estresse maior desses cuidadores está relacionado à falta de ajuda, no sentido de divisão de responsabilidades com outros membros da família, e não com o cuidar propriamente dito.

Talvez, uma forma de ajudar estes indivíduos seria, nos atendimentos, procurar envolver a família mais ativamente neste processo, atuando na educação e fornecendo orientações básicas, com uma perspectiva encorajadora que possa, de alguma maneira, minimizar suas dificuldades e auxiliar a família a planejar e providenciar os recursos necessários para um esquema de cuidados ao paciente crônico.

Esclarecer a família quanto aos seus direitos, estimulando-a a fazer uso dele, como também dos recursos existentes na comunidade.

Os mediadores são elementos que atuam como intensificadores ou amenizadores das pressões que o cuidador sofre.

São exemplos de mediadores as habilidades do cuidador (tais como estratégias de enfrentamento de estresse e habilidades sociais) e sua capacidade de empregar recursos materiais e angariar apoio social, com os quais pode contar para desempenhar o cuidado.

As habilidades bem adaptadas a este contexto e a ajuda de outras pessoas podem atuar como mediadores com efeito positivo, ou seja, como facilitadores do processo de cuidado.

As estratégias de coping são classificadas como centradas no problema ou na emoção. As estratégias centradas no problema acontecem quando se faz uso do processo de solução de problema como: enumerar alternativas e escolher uma ação.

Já as estratégias centradas na emoção ocorrem quando há uma tentativa de aliviar ou regular o impacto emocional do estresse no indivíduo, mesmo que as condições da situação não tenham mudado. 

Talvez a utilização de estratégias centradas na emoção se dê pelo fato de ser a única saída encontrada por esses indivíduos para lidarem com esta situação de estresse, visto que não há a possibilidade de se contratar outras pessoas para ajudar no cuidado devido à questão financeira.

Falar com os outros familiares seria uma estratégia centrada no problema, mas talvez por um certo comodismo, pelo fato de outros familiares morarem longe e não demonstrarem interesse em participar desta tarefa ou por tentativas frustradas de divisão dos cuidados isto não seja mais visto como possível. (FERREIRA & SIMONETTI, 2008)

Há ainda um fator cultural que pode estar influenciando tais estratégias de coping, sendo o cuidar visto como uma obrigação. Tanto que muitas famílias não procuram por uma instituição ou pela ajuda de um profissional. Como se não cuidar diretamente implicasse em abandono. 

Muitos cuidadores familiares podem acreditar que se privar de determinados benefícios para cuidar da mãe irá lhe trazer boas recompensas, deixando clara a intencionalidade do ato humano, embora sua elaboração dê-se mentalmente e fuja, às vezes, ao seu nível de consciência. 

A capacitação para o cuidar

Para que a Política Nacional de Saúde do Idoso possa ser praticada na sua essência, uma das necessidades é a capacitação de recursos humanos especializados  e desenvolver programas para os cuidados formais.

De acordo com os problemas que são observados na realização do cuidado, os cuidadores necessitam de:

  • programas de apoio que poderiam ser atendimento domiciliar,
  • serviço de cuidador substituto,
  • serviços de orientação e
  • encaminhamento para profissionais da área da saúde.

Ferreira & Simonetti (2008, p 19-25) afirmam que

“[…] estes profissionais precisam rever as questões que envolvem a assistência domiciliar, visto que, com o crescimento da população idosa, a tendência será aumentar o número de portadores de doenças crônicas.Oferecer tais serviços poderá amenizar o estresse da família que necessita deste auxílio.”

E ainda que “[…] a capacitação de indivíduos que cuidam de idosos é um recurso valioso que pode oferecer orientações gerais sobre o cuidado propriamente dito, bem como oferecer um espaço para que o cuidador possa expor suas ansiedades e dificuldades.”

Muitas vezes, o que se observa é que, inicialmente, a família se vê sensibilizada e até assustada com o que está acontecendo com um familiar e oferece todo e qualquer apoio tanto ao doente quanto à pessoa que se dispõe a cuidar do mesmo.

Entretanto, com o passar do tempo, adaptação e aceitação do fato vai se instalando e aquele que assumiu tal responsabilidade se vê, na maioria das vezes, sozinho, sem qualquer tipo de ajuda, renunciando a sua própria vida, enquanto os outros estão cuidando apenas de si próprios. (FERREIRA E SIMONETTI, 2008)

 

 

Variações sobre a natureza do apoio para o cuidar (soluções?)

Buscamos em estudos portugueses relatos científicos que descrevem o apoio para o cuidar. O que parece condicionar os apoios de que usufruem os cuidadores familiares é a sua capacidade econômica, as relações familiares e ainda as relações de vizinhança.

Com efeito, mais capacidade econômica significa mais possibilidades de acesso a serviços de apoio, relações familiares positivas ao longo da vida originam apoios familiares mais intensos e boas relações de vizinhança criam redes de entreajuda entre os vizinhos.

Deve-se considerar ainda que os cuidadores familiares não delegam nos vizinhos nem nas empregadas as tarefas relacionadas com a saúde, a higiene e o conforto dos idosos dependentes.

Assim, a administração da medicação é geralmente uma tarefa da responsabilidade do cuidador, a articulação com médicos e enfermeiros uma tarefa partilhada com os filhos e a higiene e o conforto matinal são realizados exclusivamente pelos cuidadores de idosos e pelo Serviço de Apoio Domiciliário e, ao fim-de-semana, apenas pelos cuidadores.

Os vizinhos e as empregadas tendem a executar tarefas mais pontuais e de cariz instrumental.

Nesta solução de apoio, os filhos estão ausentes durante o período diurno por motivos profissionais, mas assumem um papel ativo durante o período noturno e ao fim-de-semana.

Quando existe poder econômico, verifica-se a contratação de uma empregada que ajuda o cuidador nas tarefas mais instrumentais, atenuando a sobrecarga inerente aos cuidados prestados ao idoso dependente.

Este apoio passa, essencialmente, pelo tratamento da roupa, limpeza da habitação, da alimentação, execução das compras e pela ajuda ao cuidador familiar idoso nos serviços diretos ao idoso dependente (mudar fraldas, mudar de posição, etc.).

Mesmo nas situações em que existe uma empregada, o Serviço de Apoio Domiciliário assegura a higiene matinal e o banho do idoso dependente. (MATOS & BARBOSA, 2008)

Em Portugal, de acordo com Matos & Barbosa (2008, p 127-139) “[…] Quando não existe poder econômico para contratar uma empregada, os serviços de limpeza da habitação, tratamento da roupa e compras são executados pelos filhos, enquanto o Serviço de Apoio Domiciliário garante os serviços de higiene matinal, banho e alimentação.”

Constata-se que, mesmo existindo empregadas domésticas, estas não executam as tarefas diretamente relacionadas com a saúde do idoso dependente. Os filhos também não assumem a responsabilidade deste tipo de tarefas, sendo a maior parte dos cuidados de saúde um encargo dos cuidadores idosos.

E quanto aos vizinhos, estes assumem um papel semelhante ao da família que não coabita com o cuidador, ou seja, prestam apoio aos cuidadores familiares idosos, de forma gratuita, auxiliando-os nas suas dificuldades e necessidades cotidianas.

Frequentemente, o apoio dos vizinhos ocorre no período em que o Serviço de Apoio Domiciliário não funciona (final da tarde e à noite). 

O idoso e sua família necessitam de uma rede de apoio ampla, que inclui desde o acompanhamento ambulatorial da pessoa doente até o suporte estratégico, emocional e institucional para quem cuida. (MOREIRA, 2011)

 

Regulamentações e reconhecimentos do governo quanto ao cuidar de idosos 

Em 19 de outubro de 2006, o Ministério da Saúde instituiu a Portaria n° 2.529, que regulamenta a Internação Domiciliar no âmbito do SUS.

A internação domiciliar é definida por um conjunto de ações realizadas no domicílio, a pessoas clinicamente estáveis que precisam de cuidados, mas que não necessitam da internação hospitalar.

O objetivo é o de proporcionar um atendimento humanizado que promova maior autonomia da pessoa cuidada e de sua família. (ROCHA, VIEIRA & SENA, 2008)

O cuidador deverá também receber atenção a sua saúde pessoal, considerando-se que a atividade de cuidar de um adulto dependente é desgastante e implica em riscos à saúde do cuidador. Por conseguinte, a função de prevenir perdas e agravos à saúde abrangerá, igualmente, a pessoa do cuidador.

O conhecimento da escolaridade do cuidador é muito importante, haja vista que serão os cuidadores que receberão as orientações das equipes de saúde, que acompanharão os idosos aos serviços de saúde e que realizarão as atividades de cuidado, sendo que muitas destas são complexas e exigirão certo grau de escolaridade por parte do cuidador. (VIEIRA & FIALHO, 2010)

CONSIDERAÇÕES FINAIS QUANTO AO CUIDADOR FAMILIAR

As relações familiares de cuidadores de idosos dependentes é um desafio permanente, resultante tanto da troca de papéis na estrutura familiar, como em virtude da progressão da doença do paciente.

Entretanto a participação em atividades psicológicas e socioeducativas em instituições pioneiras no Brasil atuam como mediadores do estresse na vida tanto do cuidador como do paciente. (CACHIONI et al, 2011)

Pudemos observar nos relatos que a maior queixa dos cuidadores familiares é o sentimento de solidão e falta de mãos para lhes ajudar. Num segundo momento há uma angústia ou sentimento mal resolvido entre “deixar todos os seus anseios para cuidar de outrem”, do qual recebeu cuidados um dia, encarando o cuidar com toda a sua sobrecarga como uma retribuição.

Os cuidadores com menos queixas e mais saudáveis aparentam serem assim por uma habilidade de se adaptarem nas situações de estresse entre idoso e cuidador.

Cabe a cada um de nós, como cidadãos, e a novos estudos reconhecer que o envelhecimento com limitações também assume alto risco para os mais jovens.

Desta forma promoveremos diálogos cada vez mais significativos e práticos sobre o tema, bem como ações práticas afim de aliviar a carga do cuidador familiar garantindo a qualidade de atendimento ao idoso dependente e qualidade de vida para o cuidador.

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Trabalho de Conclusão de Curso – especialização em gerontologia 2015/2016

Denis Ferreira – Enfermeiro Gerontólogo

Gal Rosa Terapeuta Ocupacional Gerontóloga

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