Crônica: sobre o envelhecer e minha velhice

uma reflexão sobre o envelhecer que inspira os mais jovens

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O aumento da expectativa de vida e o envelhecer da população mundial são hoje realidades que desafiam toda a sociedade, e exigem uma profunda mudança de conceitos em relação ao idoso garantindo-lhe produtos, serviços, políticas sociais e programas sociais.

Torna-se cada vez mais necessário, por isso, dedicar-se aos fenômenos fisiológicos, psicológicos, econômicos, sociais e culturais que envolvem essa parcela da população.

A questão do envelhecer está ligada direta ou indiretamente a visões paradigmáticas sobre o ser humano e o seu processo de envelhecer. Embora seja algo considerado, ao longo do pensamento ocidental, esse tema é relevante.

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E se faz pertinente a sua reapresentação para discussão dentro de uma cidade local-global que vive esse problema ainda de forma bastante despreparada e preconceituosa.

Esta problemática remete a grandes questionamentos nos dias atuais:

envelhecer diante de estruturas e relações sociais, familiares, cada vez mais superficiais, provisórias, competitivas e agressivas?

Como despertar para um envelhecer saudável e sábio, quando o ser humano vive ameaça da sua identidade e de sua dignidade por situações cotidianas marcadas pela falta de respeito e pela autenticidade na relação entre os idosos?

Serão esses questionamentos legítimos? Ou essa percepção sobre o cotidiano está desfocada?

Para falar sobre o tema de acordo com os processos de entendimento humano sobre o seu envelhecer, o assunto atravessa várias ideias do saber filosófico e científico e aí se forma uma complexidade.  Nada tão simples de adentrar devido a variação de conceitos e paradigmas.

No entanto com o espírito livre e criativo, percebeu-se que, com humildade científica, se poderia contribuir com esse conceito, pois ele em si não tem verdades fechadas e prontas.

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No meu caso particular, o envelhecer teve condições naturais da vida quanto nascer e morrer. Penetrar no mundo imaginal significou caminhar por alamedas misteriosas, além de possibilitar encontrar a cada esquina um novo desafio para resolver e transcender novas etapas de crescimento.

O meu longo casamento com Doninha foi capaz de explicar os potenciais que cada um de nós sozinho não teria condições de desenvolver. Casamento bem construído e com base em projeto significativo, como o nosso, pode produzir efeitos positivos na construção da personalidade.

Assim, num mundo preocupado com o desempenho e as realizações pessoais, foi necessário insistir na solidariedade.

Num mundo apressado, definir e viver o essencial.

Num mundo aturdido pelo ruído, cultivamos o silêncio.

Num mundo obcecado pelo dinheiro, despertamos o sentido da doação e da gratuidade.

Num mundo baseado na informação e na comunicação, desenvolvemos bons relacionamentos, revimos todos os objetivos e acentuamos a formação religiosa, que está muito além da formação científica ou técnica.

A nossa velhice, também chamada “Idade de Ouro”, foi a vida inteira uma idade de ouro.

Nossa única vida, nossa única oportunidade, a oportunidade da alegria de viver, a oportunidade do amor recebido e dado, a oportunidade da criatividade, a oportunidade do tempo, longo ou breve, sempre inestimável, quaisquer que sejam os sofrimentos, as dores, as angústias. A nossa oportunidade de generosidade, de ajuda mútua, de ternura, enfim, foi uma boa oportunidade.

Como disse, para Doninha e eu, a oração é um impulso de ternura. Ternura para todos aqueles com quem oramos (à Virgem Maria, os santos, o povo de Deus), todos aqueles pelos quais oramos (em nossas intenções) e, primeiro, para Aquele a quem oramos (Pai, Filho e Espírito Santo).

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A oração é a vocação especial das pessoas idosas, porque têm tempo. A oração para nós foi um meio de sair da solidão, a maior ameaça da idade. Ela reúne aos outros, reunindo a Deus. É uma força que pedimos e que damos uns aos outros. Força misteriosa mas atuante. Nesse sentido, a velhice é o tempo privilegiado da oração, caminho da juventude do coração.

Mesmo com o passamento da Doninha, nunca me senti só, graças a Deus, sempre nos encontramos, almoçando nos fins de semanas com nossas filhas e filhos, e agora com um neto para me acompanhar.

A minha velhice não é uma doença, que geralmente atinge jovens e adultos. Pode-se adoecer com qualquer idade. Há certas doenças que atacam mais facilmente no início do que no fim da vida. Como tal, nunca dependi só de tratamentos médicos, mas também da religião.

É comum dizer-se “como era bom antigamente…”, de qualquer maneira, para mim, o passado passou. Quanto ao futuro, ainda não chegou.

O segredo para envelhecer bem, ou melhor, para continuar jovem, é viver no presente. Viver como se eu tivesse sempre o tempo a  favor, sem danos a minha saúde ou a minha vida.

 “suaviza com tua mão o contorno dos obstáculos que iremos encontrar e guia nossa mão para aquele que vai cair. Dá-nos a paz, para repartir com a inquietação, alegria para repartir com a amizade e o amor para repartir a solidão”.

 

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Antônio Sollero
92 anos, nosso colaborador senior

email: ansol@uol.com.br

1 comentário
  1. Raquel Diz

    Que texto belo e revigorante! Reacendeu uma chama de esperança em meu coração. Envelhecer é um processo que deve ser encarado como mais uma etapa do ciclo… como dizia minha mãe, “envelhecer e morrer faz parte da vida”. Gratidão ao Sr. Antonio por compartilhar esse texto!

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