Ao Entardecer

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Vem te sentar ao meu lado, no banco diante da casa, minha mulher! É teu direito, vai fazer quarenta anos que estamos juntos.

Esta tarde é também a tarde de nossa vida. Já agora nossos filhos estão arranjados, foram embora a repetir a infatigável arte de existir com outros passos e outros juízos, os quais, muitas vezes, nos parecem insanos.

Nada tínhamos para começar, tudo estava por fazer, há quarenta anos. E pusemos mãos à obra. É trabalhoso, é preciso coragem, perseverança e um bocado de grande amor.

O amor não é aquilo que pensamos no começo. Não apenas beijos mutuamente dados, palavrinhas ditas ao ouvido, ou conservar-se juntinhos até que a morte nos separe.

Longo é o caminho da vida. O dia das núpcias é apenas um dia…

Vêm os filhos, é necessário alimentá-los, vesti-los e educá-los. É um nunca acabar. Acontece ficarem doentes e te retinhas ao pé do leito a noite toda. Quanto a mim, trabalhava o dia inteiro. Assim dividíamos a tarefa de viver. Muitas vezes nos ilhando em estradas paralelas, mal e mal levantando um aceno para quem quase reconhecíamos.

Às vezes a gente desesperava, seguem-se anos e a gente não progride. Tem-se a impressão de que se está voltando atrás. Lembras-te disso? Dessa caminhada em círculos onde as dimensões se limitavam a um plano estático e nós, bailarinos da caixinha de música?

Quantos cuidados! Quantas contrariedades! Todavia, ali estavas tu. Fomos fiéis um ao outro, se não na carne, no espírito que nos uniu e tantas vezes voltou a nos unir. Assim tenho conseguido apoiar-me em ti e tu te apoiavas em mim.

       

Tivemos muita sorte de estarmos juntos. Entregamo-nos ao trabalho e vencemos dificuldades. A cada ano esticamos as guirlandas do Natal cheios de esperança, prontos a recomeçar a valsa que treinávamos e perdíamos o compasso vezes sem conta.

O verdadeiro amor não é o que se pensa. O verdadeiro amor não é de um dia, mas de todos os dias. É ajudar a compreender um ao outro, é irritar-se e gritar que não existe mais amor, sabendo que ele continua batendo e resfolegando através da densa floresta de nossos sentimentos baldios. Pouco a pouco vê-se que tudo se arranja. Os filhos ficaram grandes, fizeram-se gente de préstimo. Nós havíamos dado o exemplo, a mão e a falibilidade aceita para não esmorecer diante dela.
Consolidaram-se os fundamentos da casa. Se todas as casas dos pais forem sólidas, estes também o serão. Penso assim por que tenho sessenta e cinco anos e sento-me no banco da paciência com saudades do que já senti e a certeza de que os frutos sobrevivem às flores. Esteja pronta para que os transeuntes nos julguem e digam que fomos acomodados, vamos sorrir docemente então. Eles não sabem das noites surdas em que viramos as costas um para o outro até que nossas mãos, deslocadas de nossas vontades, se encontrassem, sábias na luta contra nossos pendores suicidas.

Por tudo isso, põe-te ao meu lado e olha, pois é o tempo da colheita e de guardar no paiol, quando o céu está róseo e uma poeira dourada ergue-se por toda a parte entre as árvores.

Encosta-se bem em mim, não falaremos, não precisamos mais dizer nada um ao outro. Quietos, podemos reviver, de mãos dadas, as acrobacias que fizemos sem saber que éramos trapezistas.

Só queremos estar juntos mais uma vez e deixar a noite chegar no contentamento da tarefa cumprida.

Coloca teu vestido de noiva, mesmo que amarelecido e, novamente, toma teu buquê para atirá-lo aos principiantes. Te verei de face lisa e sorriso encantador na emoção de seres desposada e eu me entregarei a ti como noivo na descoberta da parceria desconhecida. Deixa soar a marcha nupcial de nossos sonhos enquanto juramos mais uma vez, mergulhando como em tantas outras, em Lin Yutang para conhecer a Senhora Kuan, esposa do pintor Yüian Chao Mengfu que guiou-nos nas noites de abandono. Deixa que eu sussurre no teu ouvido para que não nos esqueçamos no último ato da representação.

“Há, entre nós ambos,
Demasiada emoção.
Tal é o motivo
do que tem havido!
Toma um bocado de argila,
Molha-a, amolda-a,
E faze uma imagem minha
E uma imagem tua.
Toma-as então, rompe-as
e adiciona-lhes um pouco d’água.
Transforma-as de novo
em uma imagem tua
e uma minha.
E então haverá na minha argila alguma coisa tua
e na tua argila alguma coisa minha.
E jamais coisa alguma nos há de separar.
Vivos, dormiremos na mesma cama
e, mortos na mesma sepultura.”

 

Texto de Vana Comissoli
Escritora de três oficinas literárias. Premiada pela prefeitura de Porto Alegre.
Terapeuta de Bioenergética.
Colabora com o site da Terceira Idade.

 

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