A felicidade é uma bicicleta

Histórias dos Amigos

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Quando eu tinha 6 anos, meu grande sonho era ganhar uma bicicleta. Sonhava com isso o tempo todo.

Me lembro que cansei de pedir para minha mãe, que tentou convencer o meu pai a comprar, mas não teve jeito. Meu pai, a exemplo de todos os espanhóis e filhos de espanhóis que viviam em Bálsamo (e que eram quase a totalidade da população), não se permitia gastar com nada que não fosse absolutamente necessário.

Era geneticamente pão-duro.
Assim passei pelo menos uns dois natais totalmente frustrado por não ter meu sonho realizado. Me lembro que o João Soler tinha em sua loja algumas bicicletas para vender, e que eu ia até lá e ficava olhando para elas e sonhando com as aventuras que poderia fazer se tivesse uma.

Cheguei mesmo a perguntar um dia quanto custava uma. E  o Seu João e o Ressu, me olhando com pena, disseram que custava 6 mil cruzeiros, mas que se meu pai quisesse poderia pagar em seis prestações. No fundo eles sabiam que meu pai nunca compraria. Talvez por isso tenham falado em mensalidades, uma coisa muito pouco comum naquela época.
Bem o tempo passou e acabei podendo usar uma bicicleta de segunda-mão, que nunca foi exatamente minha, mas de minha casa, o que significa dizer que era mais de meu irmão (5 anos mais velho do que eu) do que minha.

Mas eu aproveitei muito essa bicicleta. Com ela eu me mandava, junto com os amigos, todas as tardes que podia para nadar no Córrego do Himalaia.

A sensação de voar com aquela magrela pelas descidas da estrada de Mirassolândia era indescritível, com o vento batendo no peito suado das pedaladas pelo areião do caminho. Não era uma bicicleta bonita, muito menos a dos meus sonhos, mas me permitia explorar o meu mundo daquele tempo: ir pelas ruas e estradas de fazenda onde quisesse, para nadar, jogar futebol, comer manga.
A lembrança dessa frustração me acompanhou para sempre. Me lembro da inveja que eu tinha dos meninos que ganhavam bicicletas novas. A que eu mais admirava era a do Ditinho Céspede: preta, de qualidade, sempre muito bem cuidada.
E foi por conta dessas razões que decidi presentear meus netos Daniel e Lana, que completam este ano 6 e 4 anos, com bicicletas. E fiquei muito feliz com isso. É bem verdade que eles não estavam sonhando nem pedindo bicicletas. Mas o avô aqui estava excitado com a ideia de levar seus netos para andar com as bicicletas. Com a ideia de se realizar, 64 anos depois, com a alegria dos netos.
A bem da verdade devo dizer que senti que meus netos não se empolgaram tanto com os presentes. Sei que gostaram, e que estão fazendo o possível para aprender a andar sem as rodinhas. Mas a falta de espaço, a violência nas ruas, o trânsito violento e outros fatores não lhes permitem usar a bicicleta como instrumento de exploração do mundo, como na minha época.

O mundo deles, o atual, se tornou muito mais virtual, e nesse caso a bicicleta não ajuda muito.
Aí pedi ao meu neto Daniel que deixasse o “I-Pad” e conversasse um pouco comigo. Então lhe contei de meu sonho frustrado de menino por não ganhar uma bicicleta nova. Ele me ouviu e disse:

“Vô, agora você tem uma bicicleta. Por que você não aproveita e pedala muito com ela?”
Bem, hoje eu saí pedalando, e enquanto exigia de minhas pernas um esforço que não sei por quanto tempo ainda vou suportar, fui até Joaquim Egídio – a 3 quilômetros de minha casa, pensando em tudo isso!

 

 

rafael sanches

 

 

 

 

Rafael Sanches Neto
Educador e empreendedor social
Líder do Programa Reinvenção de Trabalho 60+
email: rafaelsanchesneto@gmail.com